“Bangerz”, cartas polémicas e um documentário na MTV – Uma semana na vida de Miley Cyrus

Na RTRO, gostamos de fenómenos culturais ou mediáticos. O debate que despoletam, as discussões que fomentam, o consenso que nunca se alcança… De algum modo, os fenómenos populares colocam dedos em feridas que nunca chegaram a fechar e, como tal, são uma óptima forma de apurar os sinais vitais da sociedade. E de que fenómeno estamos nós a falar? Do fenómeno Miley Cyrus, claro.

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Sabem aquele cliché americano “You can run but you can’t hide”? Pois bem, a omnipresença de Miley nos meios de comunicação de massa atesta isso mesmo.

Promovendo incessantemente o seu novo trabalho, Bangerz, saído na terça-feira, 8 de Outubro, Cyrus tem sido presença constante na TV e revistas americanas.

Comecemos pela semana passada, quando surgiram as polémicas cartas de Sinéad O’Connor.

De quarta, 2 de Outubro, a sexta, 4 de Outubro

Documentário “Miley: The Movement”

Polémica Cyrus VS O’Connor

Nova Sessão Pornográfica Fotográfica com Terry Richardson

A cadeia americana MTV pode ter deixado de servir música como prato principal, mas pelo menos vai servindo sobremesas como Miley: The Movement – um documentário que acompanha a cantora no período promocional da faixa “We Can’t Stop” (que, claro, inclui a performance nos VMAs).

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Divulgado a 2 de Outubro, a produção mostra-nos uma Miley segura, perfeccionista e que não se arrepende de nada – de tal forma que a primeira coisa que se ouve no documentário é Cyrus a dizer precisamente “Não peço desculpa por nada”.

Comentando a polémica actuação nos VMAs, em que dançou provocantemente com Robin Thicke, Miley refere, naquela que é a frase mais icónica do documentário: “As pessoas podem dizer que foi uma valente confusão, mas é uma valente confusão estratégica”.

Pharrell, que trabalhou na produção de Bangerz e tem já muita maturidade na indústria, também faz uma pequena aparição e sintetiza na perfeição o fenómeno Miley. “Temos de lembrar-nos de que se trata de uma rapariga de 20 anos a evoluir; o pai dela é o Billy Ray Cyrus, a avó é a Dolly Parton, e ela cresceu numa era em que o hip hop era rei. Logo, quando as pessoas perguntam ‘por que é que ela faz o twerk, por que é que ela faz isto?’… Porque é um subproduto da América”.

Como se Cyrus precisasse de publicidade extra, neste dia surge a primeira de 4 cartas escritas pela intérprete e compositora irlandesa Sinéad O’Connor.

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Tudo começou quando Miley disse numa entrevista que se inspirou no vídeo de “Nothing compares to you” para criar o vídeo de “Wrecking Ball”. Aparentemente, O’Connor não gostou e escreveu uma carta aberta a Miley, incitando-a a não se deixar levar pela indústria que, afirma, apenas está interessada na sua sexualidade e não quer saber de nenhum artista.

Cyrus não se deixou ficar e respondeu sarcasticamente no Twitter, comparando a cantora irlandesa a Amanda Bynes, postando screenshots do Twitter de O’Connor, em que esta revela episódios de distúrbios mentais – episódios que ocorreram há cerca de dois anos.

A polémica continuou, com Sinéad a responder furiosamente, questionando quem está a aconselhar Miley e a acusá-la de gozar com as pessoas com doenças mentais. E foi mais longe, ameaçando a intérprete de “We Can’t Stop” com um processo em tribunal, caso não formalize um pedido de desculpas.

Miley acabou por responder que estava demasiado ocupada a preparar o programa televisivo Saturday Night Live para responder a Sinéad.

Ainda que a reacção de Miley tenha sido tudo menos agradável, e se houve muita gente a apontar-lhe o dedo, houve também quem reconhecesse que dizer, com aparente superioridade, a uma jovem que procura a emancipação o que não pode fazer – e insinuar que ela é apenas um instrumento passivo nas mãos de uma indústria – não é a melhor abordagem.

A palavra a Alison Herman, redactora do site de cultura Flavorwire:

“O argumento de O’Connor [ao criticar a sexualidade de Miley] não deixa qualquer espaço à sexualidade enquanto parte construtiva da persona de uma estrela pop, uma componente da sua imagem, mais do que a soma das partes. Em vez disso, simplesmente reforça a crença infeliz de que as únicas opções das mulheres são ser sérias e assexuadas ou tragicamente exploradas“.

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Pelo meio, houve ainda tempo de Miley revelar mais uma sessão fotográfica ousada com Terry Richardson. O que talvez tenha sido um dos motivos que levou a cantora Annie Lennox a partilhar a seguinte reflexão no seu Facebook:

(…) estou perturbada pelo recente número de performances e vídeos abertamente sexuais. (…) Parece evidente que algumas editoras estão a promover pornografia altamente estilizada com acompanhamento musical. Como se a onda de imagens sexuais não bombardeasse as jovens raparigas que chegue. Acredito na liberdade de expressão mas as forças de mercado não querem saber dos limites. Desde que haja traseiro para lucrar, será comprado e vendido.

É deprimente ver como estas intérpretes estão tão ansiosas por forçar este novo nível de baixaria. O seu pressuposto parece ser que a misoginia – utilizada e mostrada através de si próprio é perfeitamente aceitável, desde que seja a própria pessoa a criá-la. Como se fosse justificável pelos milhões de dólares e visualizações no U Tube que se conseguem comportando-se como um chulo e uma prostituta ao mesmo tempo. É uma forma de auto-flagelo glorificada e monetizada.

Mas se Lennox se focou na sexualização per se, o site Jezebel pegou no exemplo de Miley para explorar, pelo prisma do shock value, o fenómeno das estrelas Pop actuais que mostram o corpo:

Isto é tudo pelo schock value [valor do choque]. Não há afirmações a serem feitas acerca do poder feminino, não é um comentário sobre a cultura ou a arte, não levanta questões acerca de como vivemos hoje. A atenção pela atenção é despropositada. Quando estás no comando e tens milhões a ouvir, tens de ter algo a dizer (…)

O problema destas estrelas pop semi-nuas é que falham, mesmo que tenham sucesso, porque são artistas que se tornam a elas próprias em objectos (…) Os objectos são descartáveis (…) E apesar de haver valor no valor do choque – poder de provocar – a verdade é que os pivôs dos noticiários nocturnos poderão sentir alguma consternação, e apesar de as pessoas franzirem a sobrancelha, ninguém está realmente surpreendido.

Uma quarta carta assinada por Sinéad O’Connor viria a público no dia 8, data de lançamento do álbum Bangerz, a solicitar novamente um pedido de desculpas por parte de Miley.

Sábado, 5 de Outubro

Saturday Night Live

Miley foi a convidada de honra, onde não faltaram sketches a gozar consigo própria, o governo americano, Fifty Shades of Grey e, claro, as performances obrigatórias de “Wrecking Ball” e “We Can’t Stop” – esta última em versão acústica.

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As reacções foram positivas, com Miley a conseguir ter realmente piada. E não só: a artista conseguiu colocar 6,7 milhões de espectadores colados à TV – o melhor resultado conseguido pelo programa desde há cerca de 7 meses.

Segunda, 7 de Outubro

Today Show

Além das performances habituais, no programa matinal americano a cantora falou pela primeira vez em público acerca da polémica Sinéad O’Connor, afirmando: “É uma artista incrível, uma compositora fantástica. Não sei como é que se pode começar uma briga com alguém que te diz “Ei, eu respeito-te muito!” É um pouco maluco mas sou uma grande fã dela“. E rematou: “Não tenho problema nenhum com cartas abertas, é para isso que servem os blogs; recebo cartas abertas diariamente“.

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Acerca do choque que provoca, disse: “não ofendo as pessoas intencionalmente, elas é que não estão receptivas ao que não compreendem“. E quanto à sua atitude provocante? “Talvez deixe de o ser por volta dos 40. Disseram-me que nessa idade as pessoas já não têm sexo”.

Mas no fundo, “o que me interessa é ser boa pessoa e isso não tem nada a ver com o que fazes em palco mas com a forma como tratas as pessoas fora do palco; e eu sei como trato as pessoas”. Algo que já tinha dito noutras entrevistas.

Terça, 8 de Outubro

Lançamento do álbum Bangerz

Presença no programa de TV Jimmy Fallon

No programa, Miley contou a Fallon que não sabe apenas dançar o twerk e lamber coisas. Talvez para o provar, co-protagonizou com o apresentador um sketch em que lhe faz uma manicure. Uma situação trivial, não tivessem as mãos dos intervenientes sido substituídas por mãos… de manequins.

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Gravou ainda uma versão acapella bem conseguida de “We Can’t Stop”, juntamente com Fallon e a banda The Roots.

Mais tarde, dirigiu-se ao Planet Hollywood, onde lançou oficialmente o seu muito aguardado álbum, Bangerz – sobre o qual a cantora tinha dito que queria que fosse tão bom quanto o icónico álbum Bad, de Michael Jackson. Depois disso, foi para uma discoteca com amigos.

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BANGERZ – Análise

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Depois de “We Can’t Stop” e “Wrecking Ball”, chegou às redes sociais, embora não oficialmente, a música “SMS (BANGERZ)”, parceria entre Miley e Britney Spears. Uma aliança inevitável, se considerarmos o que Miley pensa da colega: “Eu não parava de dizer-lhe: ‘Britney, não fazes ideia do quanto és brutal! As pessoas dizem-me que eu represento a infância delas; para mim, tu representas a minha, como se fosses a banda sonora da minha vida’. É uma lenda viva”.

Não deixa de ser irónico que uma artista auto-confiante que tem uma grande voz e canta ao vivo, que tem controlo criativo sobre a sua carreira e que tem opiniões próprias sobre tudo admire uma artista insegura que não passa de um produto de estrategas de marketing e que tantas vezes deixou a desejar enquanto cantora.

Mas vamos ao álbum. Apesar de muito aguardado e devidamente promovido, Bangerz não teve uma recepção consensual. Se muitos entusiastas da Pop o consideram a lufada de ar fresco de que este género de música precisava, outros afirmam tratar-se de um “simulacro de meninice transformado num dos maiores produtos dos nossos dias”.

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Apesar de mexido e pautado por ritmos urbanos, mais do que por elementos electrónicos, tão em voga actualmente, dificilmente pode ser considerado uma obra-prima. Embora a voz de Miley seja indiscutivelmente poderosa e faixas como “Adore” o demonstrem abertamente, Bangerz tem mais potencial para gerar alguns hits (daí as colaborações de Britney Spears, Nelly e Big Sean) do que para se tornar num manifesto pessoal – ainda que, por momentos, as baladas pareçam levar-nos nessa direcção.

Mas não se deixem enganar, há material contagioso aqui: “4×4”, “#GETITRIGHT” ou “Do My Thang” vão certamente ficar no ouvido, enquanto “FU” e “Maybe You’re Right” talvez vos dêem uma perspectiva de Miley que vai mais além de “We Can’t Stop”.

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É a banda sonora perfeita para aqueles serões caseiros com amigos, em que as bebidas e os aperitivos de queijo vão acompanhando lentamente as revelações de loucuras privadas e os momentos de cumplicidade.

Quanto a Miley, continua a ser o assunto mais apetecido do momento. Adore-se ou odeie-se, a verdade é que as reacções perante a cantora são sempre viscerais e raramente se situam na indiferença. Os debates acerca de sexualidade, emancipação, apropriação cultural e decência não param desde os VMAs. Não é isto mesmo que um grande movimento consegue alcançar? Como a própria disse, “Não presto atenção às coisas negativas [que dizem sobre mim]. Mais vale pôr as pessoas a falar durante 2 semanas do que durante 2 segundos”.

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Olhando para trás, já lá vão bem mais do que 2 semanas e o fenómeno continua. E parece que não tem fim à vista, se considerarmos que Miley vai liderar o conjunto de 19 artistas que actuarão nos American Music Awards e foi convidada para realizar… um filme pornográfico.

Será que Miley consegue mesmo transforma-se de fenómeno em movimento?

Uma coisa é certa: ela chegou como uma bola demolidora e certamente não vai parar.

Não se esqueçam de ler o nosso primeiro artigo de fundo sobre a cantora, onde explorámos a polémica actuação nos VMAs e a nova fase de Miley, clicando na imagem abaixo.

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O que acham do fenómeno Miley?

Consideram que a cantora tem condições para estabelecer o seu “movimento”?

Por Margarida Cunha

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