Pop of the Flops – Um diagnóstico da actual música Pop

Oiço “Live it up”, nova colaboração entre Jennifer Lopez e Pitbull. É vibrante, contagiante e soa… a tantas outras músicas que ouvi nestes últimos anos. As melodias entram-me no ouvido tão depressa quanto saem, as batidas repetem-se, rotineiras, uma atrás da outra num déjà-vu incessante. Os vídeos, que outrora mostravam pessoas e atitudes, hoje vendem-me óculos Dior, garrafas de Moët & Chandon e smartphones Nokia.

Pitbull

As letras das músicas, outrora poderosas e tocantes, são tão repetitivas ou insignificantes que nem ficam na memória. Na verdade, se parar para pensar, ultimamente tudo o que a música pop me diz é algo entre o “diverte-te, aproveita a vida, vive o momento” e o “quero-te aqui e agora, o resto do mundo não interessa” (ou ainda “nunca mais estaremos juntos. Tipo, nunca!”). Ah, há ainda espaço para músicas que nos ensinam os dias da semana – não vamos nós, com a azáfama do quotidiano, esquecer-nos.

jennifer lopez - live it up

Quando é que a Pop se tornou, tipo, tão aborrecida?

WE NEED A RESOLUTION

Em Maio deste ano, um estudo conduzido pelo Public Policy Polling concluiu que, relativamente às estrelas do actual panorama pop, Taylor Swift, Adele, Beyoncé e Justin Timberlake recolhem um parecer favorável por parte do público. Já Chris Brown, Justin Bieber e Lady GaGa “chumbaram” aos olhos de mais de 50% dos inquiridos, sendo que Rihanna e Jay-Z também obtiveram feedback negativo. Quando questionados acerca da possibilidade de um dos nomes citados assumir a presidência dos Estados Unidos, a maioria (34%) elegeu Justin Timberlake, seguido de Adele (19%) e Beyoncé (14%). Quanto tiveram de apontar o seu género musical favorito, os cerca de 570 inquiridos escolheram o country (24%), seguido da música clássica (22%) e do rock (16%). Só então vem a música pop, com 12%, ficando apenas à frente do jazz (6%), R&B (6%), dubstep (2%) e rap (1%).

adeleoscar1

Números um pouco estranhos, uma vez que “pop” é a contracção da palavra “popular”. Contudo, “saturado” talvez seja a expressão mais correcta para definir o estado da Pop actual. Pitbull e David Guetta há muito que criaram uma zona de conforto, obtida à base de pop e electrónica, tendo os outros artistas seguido a rota. Em 2010, Thom Yorke, dos Radiohead, antevia a morte da música pop. Criativamente falando, a karma police não tardou em chegar: um estudo conduzido por Joan Serrà, investigador do Artificial Intelligence Research Institute of the Spanish National Research Council, em Barcelona, analisou, em 2012, diversas músicas pop desde 1955 com base em 3 aspectos: timbre, pitch e intensidade do som. As conclusões? A variedade de timbres diminuiu, assim como de conteúdo pitch – ou seja, as faixas apresentam actualmente menos acordes e melodias. O único elemento a ter sentido uma subida foi a intensidade do som. Portanto, não é fruto da nossa cabeça, a música pop está mesmo cada vez mais homogénea – obrigada, Will.i.am. Não deixa de ser paradoxal que a variedade musical dentro da Pop seja inversamente proporcional ao número crescente de novos artistas.

guetta

Ainda assim, como refere Dorian Lynskey no artigo Pop music is in a sickly state – but could 2013 bring a great revival?, não deixa de ser curioso que os maiores hits de 2012 foram aquilo que designa de “anomalias refrescantes”, referindo-se a Gotye, PSY e Lana del Rey.

BACK IN THE DAY

“Blue Jeans” é um vídeo fascinante. Lana del Rey. Uma piscina. O amante. Preto e branco. Simples. Eficaz. A cereja no topo de bolo? Lembra-nos Chris Isaak e o seu “Wicked Game”. Por que é que gostamos de Lana del Rey? É por tratar-se de um sopro de nostalgia num ambiente consumista? Por nos lembrar as melancólicas tardes de Verão da nossa infância? Porque há uma tristeza e fatalismo constantes nas suas letras e vídeos? Porque há todo um glamour retro associado ao período áureo de Hollywood? Nem toda a gente gosta da voz de Lana mas todos concordam que a sua presença é refrescante. Uma figura não consensual, mas sobre a qual todos têm uma opinião.

Blue-Jeans-Lana-Del_Rey

Por que é que “Get Lucky” é um hit global? Será apenas reflexo do há muito aguardado regresso dos Daft Punk ou há algo mais consistente sob a superfície? Algo como uma vontade de romper com os padrões da actual música pop, estrangulada pelas influências da EDM (Electronic and Dance Music)? Algo como uma vontade de voltar atrás no tempo, quando a música ainda tinha… alma?

daft-punk-get-lucky-snl

O saudosismo é um óptimo mercado: há sempre público-alvo, pois todos temos um passado. Por outro lado, é uma inevitabilidade da passagem do tempo (e parece que, se formos portugueses, é mesmo um legado cultural), o que faz com que músicas e bandas que julgávamos boas (ou pelo menos originais) talvez não passem de um repositório de recordações distorcidas, misturadas com momentos do passado em que fomos mais ou menos felizes. Ou será que temos mesmo razões para acreditar que a Pop e os seus representantes já viram melhores dias?

spice girls

I NEED A HERO

“Justin Bieber atropela fotógrafo”, “Rihanna atira microfone à cabeça de um fã num concerto”, “Britney agride fotógrafo com um guarda-chuva”. São títulos a que temos vindo a habituar-nos, no que às estrelas pop diz respeito. E não é um fenómeno novo. No artigo “Girls Gone Bad?”, publicado na Newsweek, em 2007, Kathleen Deveny escreveu acerca das bad girls que na altura protagonizavam as manchetes dos tabloides – nada mais nada menos que o trio Britney Spears, Lindsay Lohan e Paris Hilton. Os seus comportamentos erráticos – fumar (às vezes drogas), beber, usar pouca roupa (ou até nenhuma interior) e praticar sexo casual – eram temas de alerta para as mães americanas, que receavam que a sua banalização pudesse ser interpretada pelas crianças e jovens como algo normal.

rihanna-21

Contudo, e apesar de referir estudos que confirmam que a exposição contínua a mensagens e imagens sexualmente sugestivas aumenta a probabilidade de uma sexualidade activa precoce, esse artigo também ressalva que as estatísticas relativas ao consumo de drogas, álcool e gravidez adolescente nos EUA apontavam para números decrescentes. No fundo, Deveny traçou um retrato sem o generalizar, e explorando diferentes prismas – por exemplo, aquilo que condenamos nessas mulheres é o que os homens fazem há anos. E não é porque somos fascinados por uma estrela que a admiramos e seguimos os seus passos. E, mesmo que o façamos, tal não nos condena, como refere Kathleen, a um futuro agarrado ao varão. Até porque, ressalva, na nossa adolescência todas tivemos as nossas pequenas “pancas” sem que isso tivesse vindo a hipotecar o nosso futuro.

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Contudo, há uma diferença notória entre as celebridades musicais que hoje se fabricam e os ícones que se notabilizaram nos anos 90: a mensagem. Parece difícil de acreditar mas a Pop, embora um formato de fácil digestão e assumidamente comercial, já foi um meio de transmissão de ideias e atitudes. No capítulo Role models in pop music, do livro “Media, Gender and Identity”, David Gauntlett refere o girl power que pautou os anos 90. Época dourada das girls bands, os anos 90 assistiram à explosão das Spice Girls e das Destiny’s Child, que não eram apenas bonecas imaculadamente vestidas e maquilhadas, mas mulheres de personalidade forte e mente focada. E com algo a dizer: “Survivor”, “Independent Women” ou “Bills, bills, bills” são cartas abertas de mulheres que sabem bem o que querem e que não dependem de nenhum homem para sobreviver. Parece pouco mas trazer o feminismo das elites académicas para os palcos musicais não é para qualquer um. Também poderíamos citar as TLC e a sua “Unpretty”.

backstreet boys

Os retratos masculinos eram mais variados: dos mais machistas (Eminem) aos mais doces (Backstreet Boys), passando pelos andrógenos (The Cure), as bandas e artistas a solo conseguiam geralmente reunir quer a admiração dos homens, que queriam ser como eles, quer a histeria das mulheres, que queriam casar com eles. Hoje, artistas como Justin Bieber ou One Direction podem suscitar ataques de histeria colectiva mas não são propriamente alvo de admiração. Como poderiam sê-lo se não se tornaram ainda homens? Poderão ter alguns hits mas nunca saberão o que é ser um Nick Carter. Ou um Michael Jackson.

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Como uma boa prenda, nos anos 90 o embrulho podia ser lindo, mas o conteúdo estava à altura; hoje, temos papel de embrulho cada vez mais sofisticado, de todas as cores e texturas, com brilhos e purpurinas e uma fitinha em HD mas… a prenda não satisfaz.

WORD UP          

Rihanna, Eminem e Lady GaGa são os artistas com o maior número de seguidores no Facebook – com cerca de 74, 73 e 58 milhões, respectivamente. E o que nos dizem as letras das suas músicas? Por exemplo, a good girl gone bad fala-nos sobretudo de homens – “Where have you been?”, “What’s my name?”, “Rude Boy”. Mesmo os seus êxitos mais biográficos ou introspectivos, como “Russian Roulette” ou “Man Down”, resultam de episódios marcados por homens.

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A discografia de Eminem dispensa apresentações: desde “My name is” a “The Real Slim Shady”, não há quem não leve por tabela. Britney Spears, Christina Aguilera, Will Smith, Fred Durst, entre muitos outros constam do longo rol de celebridades de alguma forma criticadas ou gozadas pelo rapper. Apesar disso, um dos seus maiores sucessos, “Lose Yourself”, é um hino ao selfmade man, uma poção de auto-ajuda destilada em 5 minutos.

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Já Lady GaGa possui um portefólio menos polémico mas nem por isso menos impressionante. Os seus “Poker Face”, “Bad Romance” e “Born this way” são dos hits que mais rodaram nas rádios e nos canais temáticos. Dos três artistas, GaGa é a mais expressiva em relação aos fãs, incentivando-os a gostar de si próprios tal como são – apoiando fortemente a comunidade LGBT, a quem dedicou, precisamente, “Born this way”.

christina aguilera - beautiful

Não há dúvida de que os artistas pop da actualidade conseguem somar hits atrás de hits. As questões que se colocam são: quantos deles deixaram (ou deixarão) hinos para a posteridade? Quantos deles conseguirão imortalizar a essência da juventude de hoje num videoclipe? E quantos deles conseguirão chegar ao coração caótico e à mente confusa de um adolescente? Para me recordar de alguém que tenha conseguido responder a essas perguntas tenho de recuar mais de 10 anos, até 2002. Refiro-me a Christina Aguilera e à sua “Beautiful”, provavelmente a última balada pop que conseguiu realmente tocar o público e a crítica.

BEAT IT

Em Maio deste ano, numa conferência de imprensa que teve lugar nos Billboard Music Awards, Céline Dion revelou as suas impressões acerca da indústria. Um dos momentos que maior atenção obteve foi quando realçou a diferença entre coleccionar hits e ter uma carreira. Destacou ainda que o rumo de cada indivíduo depende de decisões diárias e que, no final de contas, ter sucesso não é difícil; é mais importante preservar a nossa identidade. Numa verdadeira lição de vida, a artista canadiana referiu que o talento é secundário, quando comparado a elementos como o ambiente que rodeia os artistas, o seu foco e as suas escolhas.

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Céline Dion não é das minhas cantoras de eleição. Gosto de algumas músicas mas o tema recorrente é o Amor e essa é uma abordagem em que geralmente não me revejo. Mas quando Céline Dion tem algo a dizer sobre a indústria, eu paro e escuto. Porque, apesar de não ser fã, reconheço-lhe aquilo que todos lhe reconhecem: o vozeirão e a carreira sólida que construiu. Porque faz música, quando podia simplesmente lançar hits. Porque cria, apesar de poder copiar.

Porquê ser uma celebridade quando podemos ser um ícone?

Por Margarida Cunha in RTRO #22, que pode ser linda na íntegra aqui.

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