Blurred Lines – Uma linha que separa a Emancipação da Objectificação?

“Blurred Lines” foi indiscutivelmente a canção deste Verão. Foi uma competição renhida com “Get Lucky” dos Daft Punk, “Follow Rivers” de Lykke Li e mais umas poucas. Ainda assim, a avaliar pela omnipresença do single de regresso de Robin Thicke (não era possível ligar os canais de música sem que, pelo menos um deles, estivesse a tocá-la – assim como era impossível não apanhá-la numa estação de rádio, em qualquer momento do dia, várias vezes na mesma estação), e ainda que não oficialmente, ficou consagrada como o hino da estação que agora termina. Tendo vendido um milhão de cópias até ao 50º dia de lançamento, garantiu a Pharrell Williams a segunda música, em apenas um mês, a conseguir tal feito – a primeira foi, obviamente, “Get Lucky”. A tabela da Billboard também não deixa margem para dúvidas: “Blurred Lines” passou 12 semanas no primeiro lugar, tendo apenas sido destronado no início de Setembro por “Roar”, de Katy Perry. Tudo boas notícias, excepto um aspecto importante: o vídeo de “Blurred Lines” chateou muitas feministas e críticos.

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NOS BASTIDORES DE UM VÍDEO POLÉMICO

Quando Robin Thicke e Diane Martel, realizadora (que, fiquei agora a saber, também dirigiu “We Can’t Stop”, de Miley Cyrus, curiosamente também analisado nesta edição), decidiram criar o vídeo para “Blurred Lines” tinham em mente algo divertido. No ecrã, surgem-nos Thicke, Pharrell e T.I. a cantar, enquanto observam as modelos Emily Ratajkowski, Jessi M’Bengue e Elle Evans a dançar e a andar de forma sensual, interagindo com alguns objectos e animais, enquanto os cantores as observam e ocasionalmente lhes dão palmadas, mandam piropos e olhares gulosos. Pelo meio, e com frequência, aparecem hashtags (ou etiquetas) – utilizadas em plataformas como o Twitter e o Instagram como palavras-chave – a dizer #Thicke e #Blurred Lines.

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Um aspecto importante que fez toda a diferença foi o facto de os homens se encontrarem totalmente vestidos, enquanto as mulheres surgem seminuas. Um aspecto que levou a que o vídeo, lançado em Março, fosse removido do YouTube, apenas uma semana depois de ter estreado, na sequência de violação dos termos de serviço – voltando posteriormente com uma versão censurada, em que as modelos já aparecem de shorts e top.

NA LINHA DE FOGO

No que à polémica instalada diz respeito, o vídeo foi a cereja no topo do bolo, visto que a letra de “Blurred Lines” contém algumas passagens no mínimo curiosas. Desde “So, hit me up when you pass through/ I’ll give you something big enough to tear your ass in two” a “Ok, now he was close/ Tried to domesticate you/ But you’re an animal/ Baby, it’s in your nature”, algumas das palavras escolhidas pelos cantores não foram de todo bem acolhidas pelo segmento feminista dos media, sendo que as reacções não se fizeram esperar. A Vice observou que a música faz com que Thicke pareça um predador; o The Daily Beast considera que traz à tona a eterna questão de o “não” da mulher significar “sim” para o homem; a modelo Amy Davison colocou a sua reacção no YouTube, em que afirma que a relação de poder estabelecida entre os homens e as mulheres no vídeo está desequilibrada, reforçando o poder deles e objectificando-as a elas. Sem papas na língua, rematou “uma boa pila não precisa de tanta publicidade” – numa alusão à parte do vídeo em que pode ler-se, escrito com balões, “Robin Thicke has a big dick”. O blog Feminist in LA foi mais longe, tendo sido um dos primeiros a acusar Thicke de ter produzido uma música sobre violação, reforçando que a frase “I know you want it” (repetida várias vezes no refrão) contraria a noção de consenso no acto sexual. Melinda Hughes, do site Policymic, opina que as modelos não só são desprovidas de roupas, como também de individualidade e voz. Elizabeth Plank, do mesmo site, conclui que o sexismo não pode ser irónico porque ainda não foi ultrapassado. Até Moby teve uma palavra a dizer, referindo que a nudez não era um problema, mas o facto de os homens se encontrarem vestidos e as mulheres não.

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Mas há mais. Público-alvo típico da cultura Pop, alguns adolescentes reagiram ao vídeo de “Blurred Lines”, numa peça que pode ser vista no YouTube. Embora todos tenham ficado contagiados pelo ritmo da música, as reacções vão de “Nossa… isto é a versão censurada, certo?” a “Aquelas roupas de plástico não devem ser nada confortáveis”. Houve ainda espaço para “Isto é o que chamam de cultura Pop?” e “As hashtags dominaram o vídeo. Isto não é o Instagram!”. Estas foram algumas das frases proferidas enquanto assistiam ao vídeo. Posteriormente, foi-lhes dito que, na versão não-censurada, as modelos estão em topless – o que surpreendeu quase todos, levando mesmo um a perguntar “o que tem isso a ver com música?”. E, embora alguns concordem que as mulheres aparecem objectificadas no vídeo, outros desvalorizam, observando que ninguém vai estar a pensar nas suas ramificações sociológicas. Mal sabia o quão distante da realidade a sua observação estava.

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O YouTube é de facto um óptimo instrumento para sentir o pulso à opinião pública. Um dos comentários dos internautas que mais me chamou a atenção foi “This porno has awful music”.

LER NAS ENTRELINHAS

E como reagiu Thicke às reacções? Ao canal Vh1 disse que a ideia partiu da realizadora, que queria produzir um vídeo estilo Terry Richardson. Acrescentou que a nudez não o chocava, comparativamente a outros problemas actuais, e que o corpo da mulher tem sido retratado ao longo da História – rematando que os homens não estão a degradar as mulheres mas a rir-se e a ser patetas com elas. Depois, afirmou que com o vídeo queria quebrar todas as regras. Ao Today Show, reforçou a mesma mensagem, acrescentando que as intenções sempre foram as melhores e que a boa arte gera conversa, ainda que não tenha sido esse o seu intuito – chegou mesmo a avançar que o vídeo é um manifesto feminista em si mesmo. Já à GQ americana foram proferidas as declarações mais polémicas (ainda que presumivelmente irónicas), em que, à pergunta “Considera o vídeo degradante para as mulheres?” respondeu “Claro que é. É um prazer degradar uma mulher, nunca o tinha feito antes. Sempre respeitei as mulheres, por isso queria inverter as coisas e fazer com que as pessoas pensem ‘As mulheres e os seus corpos são lindos. Os homens vão andar sempre atrás delas’”. Mais tarde, confirmou que estava a gozar. À Vanity Fair disse que pediu aos colegas no vídeo para fazerem movimentos de dança parvos, como os dos seus avôs, de modo a parecerem patetas e de modo a colocar as mulheres no poder. Até o seu pai, Alan Thicke, que também já se pronunciou sobre a polémica Miley Cyrus, quis participar na discussão, tendo dito que o “I know you want it” soa mais a um “I hope you want it”, aludindo a um homem que espera pela permissão da mulher. Refere ainda que não se trata de um vídeo lascivo, observando que ninguém agarra ninguém nem ninguém anda “aos amassos”, como se tem visto de há duas décadas para cá.

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Concordo com o senhor Thicke: a ser um vídeo polémico, “Blurred Lines” será dos menos expressivos. Afinal, se atentarmos bem, os homens estão de facto a ser parvos e as mulheres, pelos olhares subtis que ocasionalmente enviam às câmaras, têm bem noção disso, como que se dissessem “Já viram bem estes tolos?”. Sim, existe objectificação no vídeo, caso contrário, toda a gente estaria vestida (ou nua, desde que estivessem todos iguais). No entanto, não deixa de ser uma canção sobre flirt. Flirt que ocorre diariamente, milhares de vezes por todo o mundo, num bar, discoteca ou casa de amigos perto de nós. Flirt que é como o tango, tem de ser feito a dois, e, se feito correctamente, envolve as duas pessoas em partes iguais, apoiado sobre o pilar do respeito e do consentimento. Ou isto, ou já vi demasiados vídeos de hip hop, que me deixaram anestesiada a qualquer coisa que esteja abaixo do “I take you to the candy shop/ I’ll let you lick the lollipop”.

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Como tal, avançar com teorias que apontam para a violação poderá ser um passo maior do que a perna. Sobretudo se o único argumento for a frase “I know you want it”. Sempre interpretei essa deixa como uma brincadeira ou como uma tentativa de atirar o barro à parede. Quantos homens não tentaram já essa abordagem, motivados pela insegurança e pela esperança de estarem correctos, mais do que pela certeza? E quantas mulheres não o terão dito também sem serem imediatamente conotadas como pervertidas, predadoras ou violadoras? A violação é um terreno minado e só deve enveredar por ele quem tiver certezas do que diz. Usá-lo a pretexto de levantar a bandeira feminista é uma táctica muito, muito perigosa. E, neste caso, no meu entender, inadequada. Fiquemo-nos pela objectificação, que, a ter ocorrido, não me parece ter uma natureza maliciosa. Algo que parece ser confirmado pelas declarações que a modelo Emily Ratajkowski deu à revista Esquire, quando refere que as mulheres foram dirigidas no sentido de serem confiantes e adoptarem uma atitude sarcástica perante tudo o que se passava, realçando que o contacto visual e essa atitude colocam as modelos numa situação de poder.

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Admito que durante bastante tempo não soube bem o que pensar sobre o assunto. Agora, estou cada vez mais convencida de que Thicke não quis realmente denegrir ninguém, embora por vezes as suas justificações tenham soado contraditórias. Uma delas é “somos todos homens casados”. E então? Deveremos deduzir que, como tal, a objectificação da mulher já é permitida, como se fosse uma espécie de concessão ou mal menor? Presumir que ser casado lhe concede free pass para alegadamente objectificar a imagem da mulher é ter a ilusão de que assumir um compromisso institucional o coloca dentro de uma redoma moralmente superior. Portanto, se há acusação que pode ser feita a Thicke é a de não ter grande poder de argumentação (ou coesão a esse nível).

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A INTERNET CONTRA-ATACA

E se estavam a pensar “decerto que alguém fez uma paródia sobre isto”, acertaram. Não foram uma, nem duas, mas várias, oriundas de fontes diferentes. Da paródia do grupo Women’s Rights, que inverte os papéis, à de Mod Carousel, há uma que se destaca: a de Melinda Hughes, que modificou a letra e o título para dar origem a “Lame Lines”. Assim, algumas das deixas ficaram: “And that’s why I’m gon’ call ya douchebag/ You think I want it/ I really don’t want it/ Please get off it” ou “I hate your lame lines”. Algures no vídeo pode ler-se “Melinda has a big vag”.

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Já na reinterpretação “Ask First”, escrita por J. Mary Burnet e Kaleigh Trace, a letra ficou um pouco mais agressiva, tendo resultado em: “So he is popular, played on the radio/ Makes money in rape culture by degrading you” ou “Why do fucking dudes think/ a skirt means I want their dick?”.

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UMA FÓRMULA INFALÍVEL

Em suma, pode dizer-se que Robin Thicke acertou em tudo: criou uma música com um ritmo contagiante (não há forma de dar volta a isso e até os seus detractores concordam), uma letra duvidosa e juntou-lhe um vídeo polémico. Tentou ainda, à sua maneira, e a acreditar no que diz, ser feminista. Quem sabe se o cantor de origem canadiana não terá realmente pegado numa narrativa aparentemente óbvia para distorcer, ainda que muito subtilmente, ideias pré-concebidas acerca dos papéis do homem e da mulher? Acredito nessa hipótese, embora, a ser verdade, merecia uma execução melhor. Segundo algumas críticas, essa abordagem não funciona, pois criticar um conceito reproduzindo exactamente esse mesmo conceito não traz nada de novo, apenas o reforça. Talvez. Em última instância, tudo dependerá do olhar que vem do outro lado da tela.

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Se ainda não é desta que a linha que separa a emancipação da objectificação fica clara, há algo que fica: a emancipação feminina tornou-se num grande bolo de que todos querem uma fatia.

Por Margarida Cunha in RTRO #23, que pode ser lida na íntegra aqui.

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