Cyrus, The Virus – Uma história de emancipação, sexo e apropriação cultural

Na última semana de Agosto, sabendo que me encontraria afastada da Internet, apenas uma pergunta me inquietava: passar-se-ia algo de interessante nos VMAs (Video Music Awards)? Mal regressei, apercebi-me de que as redes sociais palpitavam a cada minuto com algo chocante que se passara na cerimónia de entrega dos prémios da MTV. E assim foi: os One Direction ganharam um prémio. Ainda por cima para Song of the Summer, com o tema (que creio nunca ter ouvido) “Best Song Ever” – que, para conferir algum contexto, concorria contra “Get Lucky” de Daft Punk ou “Blurred Lines” de Robin Thicke (sobre quem também falamos nesta edição). Pelo menos para mim, que vi a gravação dias depois, foi o único choque (não deveria, pois trata-se da MTV. Ainda assim)… Mas nada disso inquietava os internautas. A verdadeira polémica que arrastava centenas de publicações e opiniões por toda a rede era, e ainda é, a actuação de Miley Cyrus – onde interpretou a música “We Can’t Stop”, para depois dividir o palco com Robin Thicke, num breve dueto de “Blurred Lines”. Aparentemente, a dança sensual da cantora – que usou e abusou do twerking (movimento em que se abanam as ancas, para cima e para baixo, de forma provocante) – gerou uma onda de choque e indignação numa fatia significativa de espectadores.

2013 MTV Video Music Awards - Show

Decorrendo o ano de 2013 – depois de termos passado pelos ousados anos 90 e com todos os anos da década de 2000 a serem sobrelotados de vídeos de hip hop em que o twerking era o prato principal – pergunto-me: afinal, qual o choque?

DE HANNAH A MILEY

Miley, com 20 anos, é hoje uma estrela cujo vídeo do single de regresso “We Can’t Stop” (do álbum Bangerz, que deverá sair a 8 de Outubro) conta com perto de 190 milhões de visualizações no YouTube – tendo já detido o recorde do Vevo (entretanto ultrapassado) de vídeo com maior número de visualizações nas primeiras 24 horas (perto de 11 milhões). Mas nem sempre foi assim. Tendo começado o seu percurso musical na Disney, apaixonou as crianças com as músicas de Hannah Montana. Depois de abandonar a personagem, iniciou a sua carreira a solo, a qual prosseguiu com relativo sucesso. Até que decide mudar radicalmente o seu look, adoptando um corte masculino, e enveredar por uma postura descontraída e ousada – a qual se revelou no referido vídeo – e que parece ter chocado muitos fãs e internautas. A menina inocente tornou-se numa mulher rebelde que transpira sensualidade (onde é que já vimos isto?). Para Miley, trata-se apenas de um processo de crescimento natural e não, como referiu, o resultado de uma poção criada por um cientista. Acrescenta ainda que os 20 anos são mesmo assim: um período de confusão que, 10 anos mais tarde, estará resolvido – ressalvando que é por não se permitirem um momento de loucura que muitos acabam por “descarrilar”.

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CHOQUE, SEXO E VMAs

Mas o que há afinal de tão polémico no vídeo de “We Can’t Stop”? Uma Miley despreocupada, que dança provocantemente para a câmara, pondo a língua de fora, ora a solo, ora com peluches gigantes, ora a receber e a dar palmadas no rabo, ora a dar um linguado a uma boneca. Também pode ver-se uma caveira feita de batatas fritas. E uma sanduíche de dinheiro. E uma festa na piscina. O que não falta mesmo é o twerking. A letra resume-se a um hino de emancipação, em que Cyrus assume o controlo da sua vida e promete não parar. A actuação nos VMAs manteve o espírito, acrescentando posteriormente Robin Thicke ao cenário. As reacções não se fizeram esperar: Brooke Shields afirmou claramente que não aprova esta postura – uma posição partilhada pelo grupo americano The Parents Television Council, que acusa a MTV de promover conteúdo sexual junto das crianças, através do recurso a ex-estrelas infantis e a anúncios a preservativos (um dos patrocinadores do evento era uma marca de preservativos). Já Justin Timberlake viu a performance com naturalidade, perguntando “São os VMAs. O que esperavam?”. Lady Gaga referiu que as pessoas precisam de levar a música Pop com mais ligeireza. E Alan Thicke (pai de Robin Thicke) chegou mesmo a referir num tweet: “BTW, they’re killing people with chemical weapons in Syria”. O seu comentário não é despropositado. Os EUA parecem ter considerado a actuação de Miley bem mais apelativa do que um (mais que provável) ataque à Síria, pois, de acordo com o Google Analytics, os termos “miley cyrus” eram pesquisados cerca de seis vezes mais do que os termos “chemical attack syria”. Mas não nos precipitemos nas leituras, pois, segundo a cronista Megan McCormick, do site Death and Taxes, tal acontece por estarmos mais inclinados a discutir tópicos acessíveis, por oposição a decisões políticas que poderão pôr em causa vidas inocentes.

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Cronistas de diversos sites femininos – do Refinery29 ao Shine, da Yahoo! – mostraram-se pouco ou nada chocadas com o conteúdo sexual da actuação, revelando mais desapontamento por a coreografia ter sido preguiçosa, repetitiva ou simplesmente sem gosto. E o que pensa a própria Miley de tudo isto? Recordando momentos provocantes na história dos VMAs, refere que Madonna e Britney já o fizeram antes dela e comentou com Robin Thicke, antes da actuação, que estavam prestes a fazer história. Acrescentou ainda que as pessoas estão a pensar demasiado no assunto. Uma dessas pessoas deve ter sido ser Anna Wintour, editora-chefe da Vogue americana, que, alegadamente, decidiu cancelar a sessão fotográfica que colocaria Miley na capa da edição de Dezembro, na sequência de toda esta polémica. Quem parece não ter ligado muito à actuação – apesar das comparações frequentemente tecidas entre as duas – é Rihanna, que se manteve inerte e aparentemente aborrecida durante toda a cerimónia dos VMAs. O mesmo não poderá ser dito de Courtney Love, que diz gostar da cantora por considerá-la punk, de uma maneira estranha e sexy (já Katy Perry, afirma, é uma nice girl, o que a enfadonha profundamente). Até o humorista português Vasco Palmeirim teve uma palavra a dizer, quando observou “Se a série da Disney tivesse sido feita hoje, não seria Hannah Montana. Seria Monta na Hannah.”

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FERIDAS ABERTAS – EMANCIPAÇÃO E APROPRIAÇÃO

Mas por que é que um fenómeno que envolve temas mais do que explorados na cultura Pop – emancipação feminina, apropriação cultural e sexo – ainda faz correr tanta tinta? Sex sells é um mantra da Publicidade e das Relações Públicas há já muitos anos – uma fórmula já descoberta por Madonna, Britney, Christina Aguilera, Pussycat Dolls e tantas outras. O que é chocante, então, na nova atitude de Miley? O facto de se ter tornado numa jovem adulta, por oposição à personagem infantil que interpretou? O facto de ter uma sexualidade própria da idade? Ou o facto de ser uma mulher que controla o seu próprio corpo, recusando-se a ser um objecto? É curioso que “Blurred Lines” – vídeo de Robin Thicke em que desfilam mulheres seminuas enquanto os cantores, homens, se encontram completamente vestidos e lhes mandam piropos e olhares lânguidos – não despoletou uma reacção tão intensa por parte dos media. Sem dúvida que a secção feminista dos media ficou em sobressalto (podem ler sobre este tema nesta edição) mas não se compara à magnitude com que os media generalistas de todo o mundo abordaram a polémica performance de “We Can’t Stop”. Há sexualidade explícita em ambos os vídeos, sendo um sobre emancipação individual e outro sobre flirt, logo, por que motivo terá Miley de ser crucificada? Embora a sua actuação talvez tenha tido uma overdose de twerking e língua de fora, desconfio seriamente que, apesar de todos os avanços, nem todos os segmentos da sociedade (principalmente americana) estão preparados para aceitar que 1. os jovens têm desejo e praticam sexo e 2. as mulheres são donas do seu corpo e fazem com ele o que bem entenderem. Mesmo que a performance de Cyrus tenha sido exagerada – porque, se foi, foi-o deliberadamente – a cultura Pop (e do choque, em geral) constrói-se à base de exageros, de imagens hiperbolizadas. Se de alguma forma um estímulo audiovisual não criar em mim um impacto transbordante (de emoção, de sensualidade, de narrativa), o seu propósito perdeu-se de algum modo. Não creio que tudo o que é marcante tenha de ser chocante, simplesmente considero que o chocante é uma versão hiperbolizada, e por vezes necessária, do marcante.

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Entretanto, o choque acerca da atitude de Miley surgiu a uma nova luz: a da apropriação da cultura negra. Muitos consideram que a sua nova direcção artística se apropria de elementos típicos da cultura negra, especialmente no que ao twerking diz respeito. Uma leitora do site feminista Jezebel, com a alcunha Ninjacate, vai mais longe, afirmando que o uso de pessoas (as bailarinas, que são negras) como adereços nas suas performances perpetua a ideia de que os corpos das mulheres afro-americanas servem para ser desfrutados, esvaziados de valor e exibidos para fins de entretenimento. Reforça ainda que a interacção de Miley com os corpos das bailarinas aconteceu apenas num contexto de sexualização, contribuindo assim, segundo a leitora, para a percepção da mulher afro-americana como um ser lascivo e incontrolavelmente sexual. Ou seja, a nova versão sexualizada de Miley precisa de se associar a corpos negros para se manifestar, o que, segundo Ninjacate, é algo extremamente racista.

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Embora compreenda até certo ponto esta perspectiva, não pode deixar de ser notado que a pessoa mais exposta na performance de Miley é a própria Miley, sendo também ela quem mais abertamente manifesta a sua liberdade sexual. Além disso, no vídeo de “We Can’t Stop”, os bailarinos são de ambos os sexos e cores, pelo que não diria que haja uma tentativa intencional de atribuir determinados códigos de comportamento a determinadas culturas. Bailarinas de cor estão presentes em vídeos e actuações desde que me lembro, quer a dançar para artistas brancos, quer negros. Aliás, tendo crescido nos anos 90, vi desfilar diante dos meus olhos protagonistas negras cheias de atitude e confiantes com a sua sexualidade: de Missy Elliott a Aaliyah, passando por Destiny’s Child, En Vogue, TLC, etc. Por isso, a existir um estereótipo de mulher negra sexualmente confiante, talvez tenha sido cimentado pelas próprias cantoras negras, na qualidade de protagonistas e não de “objectos”. E quem pode dizer que isso é necessariamente mau?

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Relativamente à apropriação da cultura negra no geral, este argumento não faz sentido, pois a apropriação, no geral, é o ganha-pão de qualquer artista – branco ou negro. Não creio que existam géneros estanques, confinados aos seus próprios códigos, que não procurem, aqui e ali, influências ou pedaços de inspiração. A cultura é mesmo assim, dinâmica e interactiva, e é assim que se desenvolve. Não pertence propriamente a ninguém. Como o crítico Maurice Mcleod, do The Guardian, afirmou: a cultura precisa de mais fluidez, não menos.

UM FENÓMENO DEMOLIDOR

Parece estar assim encerrada a polémica Miley. Esperem: Miley acaba de lançar um novo vídeo. “Wrecking Ball”, estreado a 9 de Setembro e dirigido pelo polémico fotógrafo das estrelas Terry Richardson, destronou “Best Song Ever” dos One Direction, que detinha o recorde do Vevo de vídeo com maior número de visualizações nas primeiras 24 horas (tendo ultrapassado o recorde de “We Cant’s Stop”). Miley volta assim ao topo dos números, com 19,3 milhões de visualizações em apenas um dia.

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O que fez Miley desta vez? Conceptualmente mais simples e sem tantos adereços, “Wrecking Ball” alterna entre dois planos principais: um dos planos, fechado, revela o rosto de uma Miley chorosa de coração partido; o outro mostra-nos uma Miley que se balança, por vezes nua, sobre uma grande bola de demolição. À medida que a música e a sua intensidade emocional se vão desenrolando, o cenário vai sendo destruído. Há quem diga que a metáfora da destruição se aplica às carreiras das concorrentes de Miley. Há quem afirme que se trate de um desabafo sobre o ex-noivo Liam Hemsworth. O que é consensual é que, mesmo numa balada, Miley continua a dançar provocantemente em cima de uma bola de destruição – e chega mesmo a lamber um martelo. As interpretações não param de chover. O The Guardian considera que Miley já não está a expressar a sua sexualidade mas a aventurar-se na iconografia porn – transmitindo a mensagem de que, para fazer-se notar, as jovens devem objectificar-se sexualmente. Remata ainda que Miley não tinha de escolher esta rota, observando que Taylor Swift possui um número de fãs expressivo, com os quais se relaciona através da sua personalidade e do conteúdo das suas músicas. Já o Huffington Post optou por uma abordagem mais cómica, tendo investigado o que os trintões andam a pesquisar no Google na sequência do vídeo de “Wrecking Ball”. Dilemas como “Billy Ray Cyrus [pai de Miley] ainda está vivo?”, “Como falar com o seu terapeuta acerca de Miley Cyrus”, “Como posso evitar Myley Cyrus?” ou “A Miley Cyrus é culpa minha?” foram algumas das referidas.

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Já o site musical PopJustice refere que a nudez de Miley até é bonita no vídeo mas que a língua estraga tudo, num vídeo que de outra forma seria brilhante. Curiosamente, numa entrevista recente, a cantora referiu que, embora se tenha tornado na sua assinatura, a língua de fora terá de reformar-se. O site Flavorwire foi mais brando com a ex-estrela da Disney, culpando maioritariamente Terry Richardson – cuja obra e atitude diz ser pautada por uma estética teenporn – pela direcção artística que o vídeo acabou por tomar.

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Pessoalmente, estou tentada a concordar com a opinião de PopJustice: o conceito foi um pouco estragado pela língua que insiste em deambular pelos mais estranhos objectos. A nudez poderia ter resultado num contexto simples e artístico mas a língua de fora, pelo seu uso excessivo, acaba por banalizar a estética do vídeo. Não só pela questão da banalização mas por uma questão de coerência temática: Miley está destroçada; por que haveria de estar a lamber um martelo?

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Uma vez mais coloca-se a questão do exagero e dos seus efeitos. Estaríamos nós a falar novamente sobre Miley (como ela claramente quer que falemos) caso aquela língua se tivesse mantido recatada? Provavelmente, sim. Mas estaríamos possivelmente a discutir a evolução estética verificada entre “We Can’t Stop” e “Wrecking Ball”, e não, como muitos de nós estão, abrir a boca de espanto e a acenar negativamente a cabeça, em sinal de reprovação. Parece que uma língua persistente é a linha que separa a obra de arte da banalidade. Ainda assim, há que admitir que a estética simples e minimal do vídeo é cativante e consegue manter-nos de olhos no ecrã – e não é pela nudez de Miley, pois a nudez contextual já não é (ou não deveria ser) um tópico polémico.

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Olhando para trás, todo este circo lembra-me a época Stripped de Christina Aguilera ou quase toda a carreira de Rihanna. Ou até aquele momento dos VMAs, em que Christina, Britney e Madonna se beijaram (passaram já 10 anos!). Tudo momentos chocantes e polémicos que agora constituem capítulos da história da Pop, revisitados ocasionalmente, sempre que um artigo de fundo é produzido acerca de uma das intervenientes.

Apesar de muitos afirmarem o contrário, acho que Miley fez mesmo história nos VMAs. Conseguiu ofuscar Lady Gaga, Justin Timberlake e o regresso dos N’Sync, assim como o de Katy Perry, pondo-nos, uma vez mais, a debater a sexualidade dos jovens, a emancipação feminina e a apropriação cultural. Temas que não seriam polémicos se estivessem pacificamente aceites e enraizados na nossa cultura. Aparentemente não estão e, se há especialidade que as estrelas Pop têm, é a de escolher bem em que feridas pôr o dedo.

Mas convenhamos que fazer história na MTV é fácil, a receita é usada há anos. A verdadeira incógnita é saber o que Miley conseguirá fazer com o estatuto histórico que alcançou.

Por Margarida Cunha, in RTRO #23, que pode ser lida na íntegra aqui.

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