Da Arte e da Pop – O Lugar de Gaga

Na última edição da RTRO, no artigo “Pop of the Flops – Um diagnóstico da actual música Pop”, escrevi acerca do quão aborrecido este género de música tem estado há algum tempo.

Cerca de um mês depois, “Applause”, o single de apresentação de ARTPOP, o próximo álbum de Lady Gaga, (com data de lançamento prevista para 11 de Novembro) chegou à Internet – segundo a cantora, uma semana antes do previsto oficialmente (se bem que, com as actuais estratégias de marketing e hype, nunca saberemos se é inteiramente verdade). De qualquer das formas, a verdade é que o regresso da Mother Monster, com a sua faixa que se situa confortavelmente entre as actuais tendências electro-pop e as nostálgicas sonoridades dos anos 80, sacudiu o pó à indústria que vinha sendo sub-alimentada à base de Pitbull e suas incontáveis colaborações e outros que tal.

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Em “Applause”, ouvimos e vemos Lady Gaga a incidir sobre um dos seus temas de eleição: a fama. A questão que se coloca é: com cerca de dois anos decorridos deste o seu último single (“Marry the Night”, de 2011), poderá a cantora voltar aos seus dias de glória? Terá ainda um lugar privilegiado no mercado cada vez mais competitivo e acelerado da cultura popular que tanto idolatra e recria? E, a pergunta que vale 1 milhão de dólares, conseguirá Lady  Gaga continuar a reinventar-se ou terá já esgotado todas as fórmulas?

O REGRESSO DA MÁQUINA PROMOCIONAL DE GAGA

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As águas há muito paradas da indústria começaram a agitar-se quando se começou a falar no novo single de Lady Gaga, “Applause”, que viria a estrear em meados de Agosto. Cerca de uma semana depois, saiu o vídeo. Ora, nesta indústria, em que vídeoclipes de todo o tipo de estrelas saem com quase tanta frequência como o pão quente, o lançamento de mais um não deveria fazer a diferença. Mas, como escreveu Sal Cinquemani para a Slant Magazine na sua review da faixa-mãe de ARTPOP, a divulgação, em 2009, do vídeo de “Paparazzi” contribuiu para que o lançamento de vídeoclipes voltasse a tornar-se num acontecimento. Inclusive, afirma que desde Madonna que nenhum outro artista explora tão eficazmente o poder promocional das plataformas mediáticas. Algo incontestável, se considerarmos que o vídeo de “Applause” teve direito a entrevista e contagem decrescente em Good Morning America – o programa matinal mais visto nos EUA. Mas não se ficou por aqui. Antes disso, já a intérprete tinha divulgado um vídeo (numa boa parte do qual aparece nua) em que experimentava o método Abramovic, que consiste num conjunto de técnicas de expressão popularizadas pela artista experimental sérvia Marina Abramovic. Entretanto, divulgou um pequeno vídeo promocional, onde podiam ler-se frases como “Lady Gaga já não é relevante”, “Não comprem o seu novo single”, “Ela está acabada” ou “Não comprem ARTPOP no dia 11 de Novembro”. Apesar de ter sido imediatamente rotulado de estratégia de psicologia invertida, este vídeo pareceu-me mais um exercício de humor do que qualquer outra coisa – a ironia, embora elementar, é bem mais refinada do que a psicologia invertida. Seguiu-se ainda uma discussão, que derivou de um tweet em que a intérprete de “Judas” incentivava os fãs a porem o seu vídeo em loop, de modo a aumentar o número de visualizações – tweet que foi posteriormente apagado, embora não tenha escapado à deliberação de alguns críticos (inclusive da Billboard) que, naturalmente, consideraram o método “sujo”.

UMA POLÉMICA CHAMADA “BIONIC”

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Pelo meio, surgiu ainda uma (aparentemente) inesperada polémica entre o famoso blogger cor-de-rosa Perez Hilton (de quem Gaga já fora muito amiga) e a cantora. Em alguns tweets agressivos, Perez acusa-a e à sua equipa de terem boicotado o álbum Bionic (2010), de Christina Aguilera (uma acusação que paira na Internet desde 2011, aquando do artigo publicado no site Examiner, The conspiracy behind Christina Aguilera’s ‘Bionic’ bomb, onde se exploram os supostos motivos obscuros que conduziram ao fracasso comercial que o álbum veio a revelar-se – apesar de, junto da comunidade de fãs de Aguilera, ser um dos trabalhos mais acarinhados. Chegou inclusive a ser considerado por vários críticos da indústria como subvalorizado. A própria Christina afirmou, já durante a fase de promoção do seu último álbum, Lotus, que Bionic era um álbum à frente do seu tempo e que, com o tempo, será devidamente apreciado). O blogger chegou mesmo a criar a campanha Justice for Bionic, em que incentiva os fãs a boicotarem o álbum ARTPOP no seu dia de lançamento, adquirindo, em vez disso, Bionic. Para que conste, o mesmo Perez Hilton, há 3 anos, quando o álbum foi lançado, apelidou Aguilera de Floptina, comparando-a a Gaga e descredibilizando o trabalho que agora, supostamente, anseia promover. Contradições à parte, Aguilera é aparentemente apenas a ponta do icebergue, pois, segundo continuou Hilton, outras artistas terão sido prejudicadas pela Haus of Gaga, nomeadamente, Katy Perry, Kerli, Natalia Kills, entre outras. Entretanto, Gaga terá acusado Perez de a perseguir e à sua família, ordenando-lhe que a deixasse em paz. Da parte do público, as interpretações multiplicam-se: uns consideram que Perez Hilton desencadeou toda esta polémica em proveito próprio; outros que o blogger está a ser verdadeiro e a fazer justiça a Bionic; outros ainda, como eu, consideram a possibilidade de se tratar de um estratagema bem desenhado entre Hilton e Lady Gaga, a fim de se beneficiarem mutuamente com a publicidade gerada. Embora as genuínas motivações dos envolvidos sejam, para já, desconhecidas, se juntarmos as peças, concluiremos que esta polémica teve três efeitos: Perez voltou a ter 15 minutos de fama (embora não consiga limpar a sua imagem de conflituoso e de fonte pouco fidedigna); Gaga manteve a sua máquina comercial a funcionar e Bionic ganhou um novo fôlego nas redes sociais – embora Aguilera nunca se tenha pronunciado sobre o caso.

“APPLAUSE” – UM MANIFESTO MULTI-REFERENCIAL

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Mas de volta aos aplausos. O vídeo do single de apresentação de ARTPOP, que estreou a 19 de Agosto, foi recebido pelos little monsters (denominação carinhosa atribuída por Gaga aos seus fãs) como uma obra-prima. Quando o vi, tinha pouco mais de 300 visualizações. Enquanto escrevo este artigo, constato que caminha largamente para as 45 milhões. Conhecendo a recorrência com que o tema da fama surge na obra de Gaga, não é de admirar que “Applause” seja um manifesto visual que surge da combinação de múltiplos referentes culturais, nomeadamente, David Bowie, Marilyn Monroe e, segundo a Rolling Stone, Vogue, de Madonna; cinema expressionista alemão dos anos 20; a personagem Morte, interpretada por Igmar Bergman, em The Seventh Seal; a personagem Joker, de Heath Ledger; o filme Black Swan; Liza Minelli, em Cabaret; Janet Jackson, na sua controversa capa da Rolling Stone, nos anos 90 e O Nascimento de Vénus, famoso quadro de Botticelli. No vídeo, a cantora surge em cerca de uma dezena de looks diferentes, enquanto se debruça sobre a sua necessidade de aplausos, o binómio arte/cultura Pop e o papel dos críticos.

AS REACÇÕES

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A recepção foi geralmente boa, embora tenha relançado o eterno debate acerca da inspiração/homenagem/cópia, do qual Gaga nunca se libertou. As comparações a Madonna continuam a assombrá-la (desta vez, “Applause” é equiparado a “Girls Gone Wild”), mas, para sermos justos, há que referir que, nesta altura, é extremamente difícil afirmar quem se inspira (ou copia) quem (se é que tal de facto acontece), tal é o número de influências e referências que os artistas vão reciclando – sobretudo se considerarmos que a originalidade pura não existe. Madonna poderá ser a rainha da Pop mas dificilmente se descarta de, também ela, ter incorporado elementos de outros artistas na sua obra. Há, de facto, uma relação dialéctica entre a cultura popular e a arte, num jogo de influências cuja origem é difícil de localizar. Gaga captou-o bem naquela que é provavelmente a parte mais interessante da faixa: Pop culture was in art/ Now, art’s in pop culture in me. Embora algumas vozes poderão encontrar alguma pretensão nestas palavras, o site de crítica cultural Hitfix resume bem do que se trata: quer Gaga nos tenha convencido de que a sua estranha arte performativa é a música Pop de hoje, quer as suas excentricidades Pop sejam arte performativa, não faz grande diferença, desde que continuemos a observar. Não será realmente esse o propósito? Tudo o resto não será apenas semântica? Segundo alguns críticos (que reflectem sobre a música que reflecte sobre eles, num processo circular), não. Críticos como Tom Hawking, do site cultural Flavorwire, que considera que as pessoas estão a fazer a pergunta errada – ou seja, a questão não é “Estará Lady Gaga a copiar/homenagear as influências que referencia?” mas sim “O que é que Gaga fez com as influências que foi buscar?”. De acordo com Hawking, nada. Classificando o vídeo de “Applause” como pós-modernidade sem propósito, afirma que Gaga foi buscar diversas influências sem, contudo, dar-lhes uma finalidade ou acrescentar-lhes algo de novo – reduzindo todo o conceito a uma mudança de figurinos, em que a imagem vale pela imagem, e as referências são vazias. Acrescenta ainda que toda  a carreira de Gaga é uma construção em que o estilo se sobrepõe à substância.

O LUGAR DE GAGA NO PALCO POP

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Sem dúvida que a solidez do seu percurso nos palcos Pop deve-se esmagadoramente à imagética, e consequente aura, que, ao longo dos anos, criou em torno de si. Mas não será isso meritório por si só? E, quando falo em imagética, refiro-me às produções audiovisuais que cria e protagoniza, não às suas escolhas de guarda-roupa mais ou menos extravagantes, mais ou menos carnívoras. Que outros artistas da actualidade conseguirão criar um vídeo, que, não sendo apenas um vídeo, é todo um conceito visual com narrativa própria, por oposição a um mero desfile de imagens? E quantos conseguirão manter esse registo durante alguns anos,  reinventando-se continuamente para alimentar um público cada vez mais ávido e difícil de surpreender, tal é a rapidez com que a fasquia se eleva?

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Não sou fã de Lady Gaga mas também não sou hater. E é precisamente o facto de se tratar de uma artista não consensual que me leva a crer que a Mother Monster talvez seja realmente uma artista. Musicalmente, não lhe reconheço grande mérito – além do facto de compor quase todas as suas músicas e de cantar ao vivo. Reconheço o seu potencial de criar música que fica no ouvido mas, em termos de conteúdo, pouco ou nada de novo nos foi dado. Contudo, considero que nem todos os artistas têm de oferecer à música contributos da mesma natureza. A Pop, pelo seu carácter heterogéneo e inclusivo – e por se alimentar tanto do estilo como da substância – pode perfeitamente reservar aos seus artistas diferentes papéis possíveis: Madonna poderá assumir confortavelmente o papel de emancipadora feminina; Aguilera o de voz de uma geração (metafórica e literalmente) e Lady Gaga o de regenerar uma indústria que, até a sua “Poker Face” aparecer, se encontrava algo desvitalizada e carente de novidade. É um papel não menos importante, pois a cultura Pop precisa de um sentido, de uma voz, mas também de um rosto (de preferência, camaleónico). De tempos a tempos, a música Pop precisa de uma figura que mobilize o debate, monopolize as atenções e faça a indústria reflectir sobre si mesma. Consegui-lo é, por si só, uma arte – seja ela Pop ou de elite. Gaga conseguiu. Nem que seja apenas por isso, merece um aplauso.

Por Margarida Cunha, in RTRO #23, que pode ser lida na íntegra aqui.

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