Do Consumismo e da Crise de Valores – O Natal ainda vale a pena?

O brilho dos embrulhos, as canções que surgem na cidade sem convite, a febre de consumo, a solidariedade que, dizem, deve existir todo o ano mas que quase sempre só é lembrada no Natal.

É isto o Natal? E, se é, vale a pena?

Do Individualismo e da Crise de Valores

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Já tinha pensado escrever um artigo de reflexão – de “vamos lá parar um bocado e pensar no que se passa à nossa volta” – quando no meu feed de notícias surge este artigo de opinião do P3. Nele pode ler-se que o Natal traz ao de cima um choque constante entre a supremacia do individual, durante o ano, e a tónica no colectivo, neste mês de Dezembro:

” (…) de Janeiro a Dezembro vive-se no carpe diem no individual em que os outros seres que integram o sistema são meios facilitadores. No mês de Dezembro, vive-se o carpe diem no colectivo, onde os outros seres são uma maneira de atenuar o sentimento de culpa por não se ter sido socialmente responsável.”

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Fala-se ainda de crise, “que não é apenas nas carteiras, mas mais pesada ainda nas mentalidades e nos valores”. “Crise de valores” é uma expressão pomposa, muito usada na contemporaneidade, para tentar expressar tudo e ao mesmo tempo não expressar coisa nenhuma. Se pesquisarmos um pouco, concluímos que por crise de valores entende-se genericamente a perda do valor das tradições e o fim do modelo de família tradicional.

Não creio que nada aconteça por acaso. Logo, a haver uma crise social, não resultará de uma ruptura progressiva que se adivinhava necessária? A mudança não é sempre fruto de um desejo, consciente ou nem por isso, de cortar com o anterior, o passado, o conhecido?

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Os valores mudam consoante as visões colectivas (que são uma assimilação relativamente harmoniosa de perspectivas individuais). Logo, se isso implica que a prima Joana verifique de vez em quando a sua cronologia de Facebook no seu smartphone, que mal tem? Será uma afronta ao valor da família? Não, de todo. Distracções sempre houve e qualquer ser humano lhes é sensível. Hoje é o Facebook; há 10 anos era o Game Boy; e há 20 era a TV. A tradição não tem mudado realmente, apenas tem vestido roupas mais atractivas e reluzentes.

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E quanto ao individualismo? Nunca o considerei negativo. O valor do individualismo diz-nos que devemos cultivar-nos na qualidade de seres humanos, o que não exclui a convivência e a solidariedade. Individualismo apenas quer dizer que, hoje, mais do que nunca, sabemos que o singular, o individual, o um, precisa de ser alimentado com sonhos, expectativas e realizações. Metas que não excluem o colectivo – aliás, quantos sonhos individuais não se materializam com e no colectivo?

E quem nos garante que, na azáfama do dia-a-dia, na cabeça de cada um não se esconde um pedaço de preocupação colectiva, uma espécie de ponto de interrogação globalmente partilhado?

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Creio, por isso, que o Natal não é uma espécie de interregno na nossa existência mecânica; nem uma espécie de gota de humanidade num oceano de individualismo. Nada disso. É apenas um período em que ser humano, ser frágil e ser parte do todo é mais visível.

Das Emoções Forçadas e das Campanhas de Solidariedade

Não gosto de emoções “criadas em estufa”, ou seja, artificialmente produzidas e alimentadas (sobretudo pelos media mainstream). É algo que já referi pelo menos em dois editoriais de Dezembro, em diferentes edições da RTRO. Parece que, a partir de meados de Novembro, o Natal se impõe pelas nossas casas adentro, não concedendo qualquer hipótese de escolha, a não ser a sua aceitação. A febre natalícia e o seu vermelho quente fervilham de tal modo em popups, paragens de autocarro e mascotes de supermercado que espreitam em cada canto, que os nossos anticorpos reagem agressivamente, muitas vezes recorrendo à rejeição.

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As emoções, ainda que esperadas e previsíveis (como as do Natal), são complexas e têm o seu próprio ritmo de incubação. Devem, portanto, transbordar a partir de dentro e não invadir-nos a partir do exterior. Senão, o resultado final pode bem ser um estado de espírito com telhados de vidro: uma cobertura de alegria dissimulada, barrada sobre uma massa de stress, frustração e solidão.

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E que dizer das campanhas género Missão Sorriso, do Continente, ou Arredonda, do Lidl? Não há realmente forma de conhecer as verdadeiras intenções das figuras públicas e marcas associadas a este tipo de iniciativas. Mas, se o resultado final for produtivo e fizer diferença na vida de dezenas de pessoas, não é melhor do que nada? Às vezes, é preciso pôr o cinismo em “pause” e o benefício da dúvida em “play”.

Do Consumismo Desenfreado

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E quanto ao consumismo? Talvez esteja um pouco desenfreado. Mas não é só no Natal. É de cada vez que sai um iPhone. Ou um GTA. Ou uma colecção da H&M em colaboração com uma celebridade.

Claro que o Natal se tornou numa mercadoria – tal como qualquer outra coisa a que a sociedade de consumo tenha deitado as mãos. Mas isso é apenas um dano colateral da forma como nós, ocidentais, decidimos viver. E no Ocidente decidimos apoiar as nossas existências nos pilares da globalização e da economia liberal.

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De qualquer das formas, a economia precisa que o dinheiro circule. E desembrulhar uma prenda encerra uma doce magia que todos gostamos de experimentar.

Afinal, o que é o Natal?

Como definir algo tão colectivo e, ao mesmo tempo, tão individual? Há pessoas que precisam de ter a sala entulhada de presentes; outros contentam-se com a textura carnuda de uma rabanada. E outros serão simplesmente anti-natalistas. Mas não é para esses que o Natal existe.

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O que importa é, afinal, que seja à nossa medida. Com músicas da época, vermelho por todo o lado e Ferrero Rocher, ou simplesmente no conforto de uma manta, com a consciência de que, nos nossos sonhos e inquietações, estamos todos muito perto uns dos outros.

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Feliz Natal!

Por Margarida Cunha

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