The F* Word

Em Novembro de 2007, a revista Marie Claire britânica publicou o artigo “Can we rebrand feminism?”. Nele, a redacção pedia a 3 agências publicitárias que criassem um anúncio ou produto que revitalizasse o apelo do feminismo. Esperem. O feminismo precisa de ser revitalizado?

5611727372_669b1c5fb8_z

Em Janeiro de 2011, Catherine Hakim causou polémica com o livro Feminist Myths and Magic Medicin, em que tenta deitar por terra várias pedras basilares do pensamento feminista. Celebra, assim, a diminuição da diferença salarial entre homens e mulheres como o grande sucesso da legislação para a igualdade de oportunidades. De resto, descarta a utilidade da mesma pelo facto de não reflectir os verdadeiros desejos das mulheres e, como tal, não possuir qualquer “base científica”.

Nas palavras da professora na London School of Economics, na verdade, as mulheres prefeririam, se lhes fosse concedida a possibilidade, ficar em casa – a tratar dos filhos – a trabalhar. Desmistifica ainda a crença de que a mulher aspira à independência económica, apontando o casamento como uma “alternativa ou um suplemento das suas carreiras profissionais” – ou seja, as mulheres continuam a preferir homens com mais formação académica e poder económico do que elas.

5611134087_84a575eeec_z

E nem podem, argumenta Hakim, queixar-se relativamente às dificuldades na progressão na carreira, uma vez que – se optam por trabalhar menos horas para se dedicarem à família – a culpa é delas.

Perante este tipo de discursos, impõe-se questionar: há ainda lugar para o feminismo?

5611139983_feebd5ed34_z

Desde os primórdios do pensamento humano que a mulher é retratada como um ser inferior, uma cópia imperfeita do homem, uma criatura sensível e fraca que é necessário proteger. Mesmo na Idade das Luzes – uma época em que seria expectável alguma evolução nas atitudes e nas mentalidades – os elementos do sexo feminino surgem, de forma natural, intelectualmente inferiores aos homens.

Foi preciso esperar pelo período das grandes guerras para a mulher assumir um papel activo na vida laboral, demonstrando, desse modo, que podiam ser-lhe atribuídas exigências bem diferentes das de mãe e esposa. Tratou-se de um período fecundo para o feminismo. Os anos 60 e as suas revoluções sociais trouxeram consigo a pílula – que, por sua vez, trouxe à mulher a chave para o controlo da fertilidade e da vida sexual, um aspecto que vale tanto pela sua amplitude simbólica como pelo controlo da natalidade em si.

5611129827_fb4d03ca53_z

Ainda assim, as concepções tradicionais dos géneros continuam a traduzir-se, em termos de trabalho, em tarefas mais expressivas para as mulheres e instrumentais para os homens. Esta dicotomia presente no discurso científico tradicional atravessa ainda hoje todos os suportes mediáticos, culminando numa série de expectativas cada vez mais irreais e em catalogações cada vez mais fixas.

Assim, comportamentos e formas de pensar não são fundamentados por experiências culturais e vivências individuais diferentes, mas pelo facto de se ter nascido homem ou mulher. Não só se filtra toda a humanidade das nossas acções, como nos é retirada a responsabilidade – afinal, ninguém tem culpa do sexo com que nasceu.

5611733404_bf6a6922e4_z

Independentemente dos interesses que estas concepções possam servir, a verdade é que existem. Não é por acaso que um outro aspecto indissociável da condição feminina seja o corpo. Trata-se de uma característica que assume contornos gigantescos, quando analisada à luz de uma sociedade em que o sexo vende e que se sobrealimenta de imagens. Exemplo disso mesmo são as campanhas publicitárias que enchem as revistas femininas.

Em 2003, a partir de uma análise de publicações portuguesas dessa especialidade, a investigadora Silvana Mota-Ribeiro concluiu que existem 3 tipos de mulher no discurso publicitário: a mulher-visão (um objecto para observação); a mulher bela (ideal de juventude e magreza) e a mulher-erótica (a mulher sensual e sexualmente disponível). Em todos os retratos a investigadora realça a passividade das mesmas, reforçando o seu carácter decorativo. As mulheres limitam-se a estar nos anúncios, não sendo nem fazendo coisa alguma.

5611740612_5b1c79ece0_z

Como se o feminismo não tivesse já dores de cabeça que chegassem, tem ainda de lidar com uma nova geração de mulheres – as actuais adolescentes e jovens adultas que, fruto já de uma sociedade consumista e pós-moderna, rejeitam o feminismo, descartando-o como antiquado e, como tal, desadequado à realidade contemporânea. Tratam-se de mulheres que cresceram no seio daquilo a que a autora feminista Susan J. Douglas designa por “enlightened sexism” (sexismo iluminado) – e que dá título ao seu livro Enlightened Sexism – The Seductive Message That Feminism’s Work Is Done.

Esta concepção incute nas mulheres a ilusão de que os objectivos feministas estão já alcançados. Douglas exemplifica, recorrendo a uma série de produtos da cultura popular, tais como séries em que a mulher assume protagonismo (Buffy, Caçadora de Vampiros; Xena, a Princesa Guerreira ou A Vingadora), para afirmar que este suposto novo poder assumido pelas mulheres não passa de uma fantasia – um mecanismo para as manter satisfeitas e afastadas daquilo que realmente lhes confere poder e autonomia. Utilizando um exemplo bem mais real, destaca a figura da mulher afro-americana, muitas vezes olhada com inveja pelas congéneres caucasianas, uma vez que é capaz de afirmar a sua sexualidade, vontade e opinião sem qualquer medo de ser catalogada como ridícula ou desbocada. Pelo menos, este é o retrato que a ficção americana traça.

5611735786_21d05c66de_z

Contudo, a realidade, segundo Susan, é bem mais complicada, revelando uma série de estatísticas – maior taxa de pobreza; maior probabilidade de morrer de, por exemplo, doenças cardíacas e SIDA; maior probabilidade de ser assediada sexualmente, presa ou violada – que atestam que a plena igualdade dos géneros é ainda um produto do imaginário colectivo associado à televisão.

Por todas as adversidades enfrentadas e pelas que ainda hoje subsistem, parece fazer algum sentido que o Dia Internacional da Mulher – que já ultrapassou o 100º aniversário – continue a ser recordado. Afinal, não pode ser descredibilizado como mais um capricho feminino um capítulo histórico que foi escrito com as cinzas de mais de uma centena de mulheres que tiveram a ousadia de expressar que a igualdade é um direito.

5611706544_f8b188b7f6_z

Se deve ser celebrado ou não, dependerá – mais do que do género com que nos identificamos – da nossa capacidade de vermos o copo meio cheio ou meio vazio, ou seja, da nossa perspectiva em encarar a luta pela igualdade como uma estrada com muitos quilómetros percorridos ou com mais ainda por percorrer.

Sabendo nós que as celebrações se reservam a feitos excepcionais, e não a rotinas práticas do quotidiano, talvez seja um bom sinal quando o Dia da Mulher não for celebrado. Talvez nesse dia tenha chegado uma mulher estúpida ao poder. Ou talvez não tenha chegado uma mulher nem um homem. Apenas um líder.

Por Margarida Cunha, in RTRO #9, que pode ser lida integralmente aqui.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s