Factor K – Por detrás da capa da Vogue, da meritocracia e da sexualidade

Enquanto escrevo este artigo, Kanye West e Kim Kardashian devem estar em plena lua-de-mel, capitalizando toda a sua fama e poder mediático. Afinal, protagonizaram aquele que foi um dos mais populares e glamorosos casamentos de celebridades dos últimos anos. Se dúvidas houvesse quanto a esse estatuto, basta avaliar pela fotografia oficial da boda, que a noiva partilhou na rede social Instagram, e que rapidamente se tornou na foto com mais “gostos” naquela plataforma – perto de 2 milhões, até à data.

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O enlace entre a empresária e o rapper, que envergaram ambos Givenchy Couture, teve lugar em Paris e Florença e é ainda o assunto de que se fala. Contudo, houve um momento que catapultou o já célebre casal para a nata da nata dos famosos: a capa da Vogue.

IN VOGUE

A publicação conduzida há décadas pela imperturbável Anna Wintour dispensa apresentações. Contudo, para mentes menos inteiradas acerca da linha editorial da Vogue americana, deve referir-se que é conhecida por ser muito exigente relativamente às protagonistas de capa. Segundo a própria Wintour, a revista aposta em figuras que definam a cultura num determinado momento, que agitem as coisas, cuja presença no mundo o molde e influencie a forma como olhamos para ele.

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Esta foi, pelo menos, a justificação que apresentou perante a enorme onda de contestação que surgiu na sequência da capa protagonizada por Kim Kardashian e Kanye West. Há muito que se especulava que uma capa da Vogue poderia estar a caminho para o casal, devido à proximidade entre o rapper e a editora (conhecida pelo seu círculo social exclusivo). Se Kanye já era presença habitual em desfiles, Kardashian nunca recolheu grande simpatia junto de Wintour. A aproximação terá começado no ano passado, graças a West, quando este conseguiu que Kim fosse incluída na restrita lista de convidados da MET Gala, organizada por Anna. As redes sociais e a euforia popular – ávida de mais um casal para amar, consumir e deitar fora – fizeram o resto. Eis que chega, enfim, a Vogue de Abril, protagonizada pelo casal-sensação: ela, vestindo Lanvin, e com um sorriso doce e delicado no rosto; ele, agarrando-a pela cintura, com uma expressão terna e apaixonada. O momento foi captado por Annie Leibovitz. Na legenda, numa alusão aos novos dialectos da pós-modernidade, pode ler-se a hashtag “worldsmosttalkedaboutcouple” (“o casal mais falado do mundo”). A filha do casal, North, surge também na sessão de fotos.

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A candura da família não conseguiu, contudo, tocar todos os corações. Um deles foi o de Sarah Michelle Gellar, a eterna “Buffy, a Caçadora de Vampiros”. A actriz utilizou o Twitter para mostrar o seu desagrado relativamente à escolha da Vogue, tendo mesmo escrito: “Bem, parece que vou cancelar a minha assinatura da Vogue. Quem está comigo?”. Apesar de ser a mais comentada, a reacção de Gellar foi apenas uma entre dezenas de utilizadores do Twitter. Houve até quem dissesse “RIP Vogue”.

NÚMEROS REDONDOS

Que impacto poderia uma escolha de capa polémica ter nas vendas da Vogue? Um impacto positivo, segundo os números viriam a revelar. De acordo com o site de moda TooFab, a edição protagonizada pelo casal – baptizado de “Kimye”, pelos media – superou as 500 000 unidades vendidas em banca – ascendendo a 1,2 milhões, se contabilizarmos os assinantes da revista. Especula-se que Kim Kardashian poderá ter contribuído, numa pequena parcela, para estes números, pois a empresária foi apanhada pelos fotógrafos a comprar várias edições da revista num mesmo quiosque

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Para efeitos comparativos, refira-se que a edição protagonizada por Beyoncé (conhecida por vender muitas revistas) vendeu cerca de 350 000 unidades. Já a capa de Michelle Obama, uma das mais icónicas, situou-se perto das 300 000.

Se os números positivos vos apanharam de surpresa (afinal, Kim e Kanye não são propriamente adorados pelo público), então não estão a prestar a devida atenção à cultura Pop. Foi precisamente Anna Wintour quem popularizou a prática de colocar celebridades na capa das revistas de moda. Até então, as publicações eram sempre protagonizadas por modelos. Não podem ainda esquecer-se da premissa número um do jornalismo cor-de-rosa: a polémica vende.

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Agora, a pergunta para 1 milhão de dólares: afinal, por que é que esta capa foi polémica?

“There’s a thousand you’s, there’s only one of me”

Se digitarem no vosso motor de busca os termos “Taylor Swift” e “Kanye West”, não irão surgir resultados muito abonatórios para o rapper. Em 2009, Swift subia ao palco para receber o prémio de “Best Female Video”, por ocasião dos MTV Video Music Awards, quando West resolveu juntar-se-lhe, roubar-lhe o microfone e disparatar, afirmando que Beyoncé deveria ter ganho o prémio – perante o ar chocado da cantora, que assistia na plateia.

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Uma prática que West começou a aperfeiçoar já em 2006, quando o seu vídeo “Touch the Sky” perdeu para “D.A.N.C.E.”, da dupla francesa Justice, na categoria de Best Video, nos MTV Europe Awards. O prémio de Best Hip Hop Artist não foi suficiente para confortar o artista, que considerou que o seu vídeo deveria ter ganho, pois tinha custado um milhão de dólares e incluía a actriz Pamela Anderson. Chegou mesmo a acrescentar que, se o seu vídeo não ganhasse, a cerimónia da MTV perdia credibilidade. Nem o presidente Obama ficou imune à postura de West, tendo-o mesmo apelidado de “jackass”.

A estes comportamentos repreensíveis juntava-se a visão do rapper acerca do seu próprio trabalho – que considerava genial. Lembram-se de “Stronger”, remake da faixa “Harder, Better, Faster, Stronger”, dos parisienses Daft Punk, que contou com a participação dos próprios? Kanye debitava frases como “Bow in the presence of greatness/ Cause right now thou has forsaken us/ You should be honored by my lateness/ That I would even show up to this fake sh**. Ou: “There’s a thousand you’s, there’s only one of me”.

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Um floco atrás do outro, e em breve temos uma gigante bola de neve mediática, que retrata West como uma figura delirante e narcisista.

UM ESCÂNDALO DE MULHER

O nome Kim Kardashian é-vos familiar, embora não consigam associá-lo a coisa alguma? Não é de estranhar. Afinal, a empresária junta-se ao rol de celebridades “famosas por serem famosas”. Um termo atribuído a personalidades que preenchem páginas de jornais e de Internet, sem percebermos bem como é que lá chegaram. Um bom pretexto para consultarmos a Wikipedia: de acordo com a enciclopédia digital, Kim Kardashian é modelo, socialite, atriz, empresária, produtora executiva e reality star norte-americana. Ficamos ainda a saber que Kardashian se tornou famosa “após protagonizar um vídeo de conteúdo erótico” com o ex-namorado, o rapper Ray J. Seguiram-se as páginas de mexericos, o reality show da família, “Keeping Up with the Kardashians”, capas para a Playboy, linhas de perfumes, jóias, roupas, etc. Kim fez questão de que nunca nos esquecêssemos dela, mesmo que a vasta maioria dos media e dos internautas a gozasse e subvalorizasse – sem, claro, nunca perder um passo seu.

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À semelhança de Paris Hilton, Kim nunca conseguiu junto do público um reconhecimento genuíno do seu estatuto de celebridade – apesar destes tempos polvilhados a reality shows e a estrelas que nascem e caem no mesmo ano, uma fatia mais conservadora dos internautas continua a exigir um mínimo de talento e mérito aos seus famosos. Afinal, um dos pilares fundamentais da nossa cultura, embora constantemente agredido, continua a ser a meritocracia: a crença de que o esforço, o talento e o desenvolvimento de competências devem ser as bases do sucesso. Na óptica de muitos, Kardashian não possui qualquer um desses elementos, considerando, assim, a sua fama injustificada.

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Muitos, mas não todos. A leitora do site The Powder Room, NinjaCate, assinou um artigo de opinião no qual defende o talento de Kardashian, atribuindo-lhe a ela (e apenas a ela) o mérito de se ter transformado num ícone global, financeiramente auto-sustentável. NinjaCate sublinha que, embora Kim se tenha tornado famosa graças a um vídeo erótico, mantevese famosa graças ao seu empreendedorismo e à sua capacidade de abraçar diferentes negócios – e remata: “Kim Kardashian is in the business of being a celebrity, and it’s a game she and her family play very well”. A leitora tenta ainda desconstruir os argumentos dos opositores de Kardashian, sobretudo os que a criticam pelo seu vídeo erótico. NinjaCate sustenta que essa postura nasce do desconforto que muitos de nós ainda têm perante o sexo e a sexualidade. Acrescenta ainda que, aos olhos de muitos, os dois divórcios de Kim são um atestado de falhanço moral.

O FACTOR K

Será realmente verdade? Será que, décadas volvidas desde o movimento de emancipação feminina, no geral, e sexual, em particular, continuamos a julgar mulheres que tenham tido um percurso de vida iminentemente sexual? E se a capacidade de exercer fascínio sexual for um talento como outro qualquer, que exige investimento e aperfeiçoamento?

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A juntar-se ao lado moral da história, outra questão se levanta: a do elitismo. Matthew Zuras, do site Refinery29, não hesita em afirmar que Kim Kardashian está a ser vítima de uma pretensiosa cultura de classes, que sempre caracterizou os leitores da Vogue. Aparentemente, tudo se resume a “Kim Kardashion não merece estar na capa da Vogue”.

No final de contas, a escolha de Anna Wintour acaba por ser justificada no editorial da revista, quando afirma que praticamente não existe qualquer fio mediático que os Kardashian Wests não tenham conseguido dominar. E prossegue: “Kanye é um performer fantástico e um provocador cultural, enquanto Kim, através da sua força de carácter, criou um espaço para si própria no palco do mundo, e é preciso ter coragem para isso”.

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Talvez a meritocracia esteja a morrer. Talvez os critérios da Vogue estejam a ficar mais abrangentes. Talvez as revistas precisem de vender desesperadamente. Talvez estejamos a levar as coisas demasiado a sério. Talvez muitos de nós não tenhamos o Factor K e isso deixa-nos com inveja.

No final, Kim e Kanye foram moldando as circunstâncias a seu favor: cada actuação, cada escândalo, cada manchete, cada “like”… até estar criado um capital mediático sólido. A capa da Vogue era o inevitável passo seguinte E se ambos tiverem estado a trabalhar para uma capa da Vogue desde o seu primeiro encontro? E se a capa da Vogue tiver sido o resultado da fama pela qual trabalharam? E se a capacidade de mobilizar partilhas e manchetes for uma arte como qualquer outra? Talvez o jogo da meritocracia se mantenha mas as regras tenham mudado. Talvez Kim e Kanye sejam mais perspicazes do que parecem.

Uma coisa é certa: quem precisa de uma capa merecida quando tem uma capa inevitável?

Por Margarida Cunha, in RTRO #27, que pode ser lida na íntegra aqui.

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