A minha jornada pelos distúrbios alimentares

Era uma vez uma menina de doze anos que, depois de uma viagem com a família até à Suíça, começou a ficar muito sensível a questões do ser humano. A certa altura da sua pré-adolescência, brotou-se-lhe uma raiva tal que espelhou em todas as cenas da sua vida familiar. Uma rebeldia tal que chocava com quem quer que fosse, para tristeza e nostalgia do meu sorriso, do qual todos os meus mais que tudo invejavam com regozijo. Posso também dizer que o estilo de vida da minha irmã mais velha me chamou a atenção, especificamente todos os seus cuidados com a alimentação, a indumentária, enfim, com a beleza em geral. Mas não quero de maneira nenhuma estar aqui a atribuir culpas, quando a maior culpada disto tudo fui eu mesma.

eating-disorder

Comecei lentamente a mudar os meus hábitos alimentares, até que soou o radar dos meus pais para algo que temiam ser grave, dado o meu estado completamente apático e depressivo. Lembro-me como se fosse hoje, da minha primeira consulta com o psiquiatra, que fiquei a odiar passados quinze minutos de conversa, mesmo sendo um senhor conceituadíssimo no que diz respeito a estes problemas. Quis ignorar terminantemente o diagnóstico que me foi dado: anorexia nervosa. Depois, para completar este breu onde me encontrava, soube que um tio meu, que eu adorava tanto, tinha cancro no timo. Acompanhámos o estado dele de perto e eu cada vez mais definhava de dor e sofrimento. Eis que chegou a notícia da sua morte, dia 4 de agosto de 2000, uns dias antes do meu primeiro internamento na ala de Psiquiatria do Hospital de S. João, no Porto. Foi então que o meu mundo caiu … Bati no fundo do poço … A memória do funeral, de toda aquela angústia da minha família, assimilou-se em mim a duzentos por cento.

3967455172_bae4ff8c3d_o

Entretanto, já no internamento, conheci duas pessoas incríveis e inesquecíveis, que me ajudaram durante toda aquela fase dentro e fora do internamento: O Manel e a Filipa, ambos anoréticos e mais velhos que eu. A nossa cumplicidade foi-se tornando tal, que nós não nos concebíamos separados dentro daquelas quatro paredes, mesmo o Manel tendo sido muitas vezes chamado à atenção por estar na ala feminina. Eu dormia no mesmo quarto que a Filipa e ela foi uma verdadeira irmã para mim … (sim, porque, nessa altura, eu sentia que não tinha irmã alguma, nem de sangue, nem do que quer que seja, visto que a Inês nunca me foi visitar ao Hospital das três vezes que fui internada). As duas vivemos situações terríveis e gratificantes. O meu primeiro animal de estimação foi-me dado pela Filipa, a minha bela gatinha Tita, que Deus a tenha em bom descanso. Entretanto, passaram-se dois anos e eu tive mais uma recaída. Este internamento foi pior, pois eu sentia-me completamente sozinha. Já não tinha o Manel nem a Filipa para me amparar, se bem que cheguei a fazer boas amizades lá dentro com algumas pessoas sem a minha doença.

shutterstock_118593904

Mais dois meses lá dentro, sem perspectivas de futuro nem ambições, apenas a necessidade desmedida de ser magra. Por muito apoio que tivesse da minha família, a minha mentalidade obsessiva ganhava sempre mais terreno. A relação com os meus pais deteriorava-se a cada dia, havendo conflitos principalmente com o meu pai. Chegara então o dia, em que já não havia conflitos pois a minhas forças haviam-se dissipado completamente do meu corpo, na minha terceira e última recaída. Lembro-me como se fosse hoje, de todas as vezes que o meu pai me pegava ao colo pois eu já não tinha forças para andar, da minha mãe que me dava banho sempre que tínhamos compromissos familiares ou para as consultas. A minha voz inaudível acompanhava o bater do coração fragilizado e a respiração fraca e dolorosa no meu corpo escanzelado de meros 28kg de peso. Já não era eu, já não era vida, mas mesmo assim recusava-me a digerir o que quer que fosse, estando nessa altura simplesmente a água e chá deixando de mastigar durante dias seguidos. Enfim … era agora ou nunca … tinha que tomar uma decisão …”Queres morrer, ou queres viver?”

cc_eating_disorder_131020_16x9_1600

Apesar de todo o meu sofrimento e de já estar mais morta que viva, sempre tive um medo abismal da morte (que ainda hoje persiste), mas o facto de estar a causar uma descompensação enorme aos meus pais também pesou bastante na minha decisão final. Foi então que me fizeram um ultimato: “ou comes ou terás de ser alimentada por uma sonda”. Foi então que decidi, mesmo que muito contrariada na altura, que iria comer. Este último internamento foi o derradeiro, o mais difícil, em que vivi entre paredes e janelas gradeadas durante quatro meses seguidos. Confesso que todos estes meses naquele antro de insanidade me levaram a fazer as piores loucuras e a reter dentro de mim alguns dos meus maiores traumas e cicatrizes entreabertas. Após a minha saída definitiva deste internamento, jurei para nunca mais. A visão do inferno chegara ao fim.

eating-disorders1-650x433

Nos meses seguintes fui recuperando rapidamente, mas as consequências de anos de privação alimentar levaram-me a uma bulimia e a compulsões alimentares sem precedentes. Desde essa época que o meu peso tem tido sempre altos e baixos. Felizmente, agora, com 27 anos, o meu peso tende a estabilizar, e com o tratamento adequado estou gradualmente a chegar ao peso ideal para a minha altura. Não nego que as compulsões continuem a existir, mas neste momento, muito mais controladamente. Enfim … a história da minha vida é esta. Já me propuseram escrever um livro sobre isto mas nunca tive coragem pois ainda tenho alguns fantasmas no armário, mas quem sabe um dia mais tarde. Acabo com uma frase que uma anorética minha amiga me disse para me dar forças para continuar: “Nunca percas esse sorriso lindo que tens. Sabes, há pessoas que dizem que quanto mais sofreres agora, no presente, mais vais ser feliz no futuro”. E de facto, ela tinha razão. Agora, mesmo, mesmo para finalizar, acabo com uma frase do nosso grande mestre Raúl Solnado, que me ficou para sempre na memória e no coração: “Nunca desistam de ser felizes.”

Por Maria João Barbosa, in RTRO #29, que pode ser lida na íntegra aqui.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s