Especial 5º Aniversário – 5 Mulheres que colocaram o Feminismo na Agenda Mediática

O feminismo é trendy. Já foi identidade, já gerou notícia, já espicaçou ódio e agora virou hashtag. Independentemente do posicionamento que se possa adoptar face ao movimento, é incontestável o aumento da frequência com que o termo tem vindo à baila nas redes sociais (onde tudo acontece primeiro). E se tal acontece é porque o tema se alimenta a si próprio, crescendo em forma e tamanho, levando a que, inevitavelmente, as celebridades queiram fazer parte do jogo.

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Na edição que celebra o 5º aniversário da RTRO, destacamos cinco mulheres que deliberadamente trouxeram o feminismo para as conversas de pequeno-almoço. E de almoço. E de jantar.

Malala Yousafzai

Malala-Yousafzai

Lembram-se dos vossos 17 anos? As dúvidas existenciais, os arrufos com os pais, a insegurança face ao futuro? Com essa idade, Malala Yousafzai foi laureada com o Prémio Nobel da Paz. Um desfecho feliz de um pesadelo que é, para milhares de jovens, uma realidade. Em 2012, ao entrar no autocarro que a levaria à escola, Malala foi baleada na testa, ficando inconsciente e em estado grave. Um acto pouco fortuito, considerando que o autor dos disparos a chamou pelo nome – a jovem paquistanesa tinha vindo a promover a educação das jovens no vale do Swat (região sob o domínio do movimento talibã) através da participação num blog e num documentário da BBC. Um ano depois, a Time colocava-a na capa e declarava-a uma das cem pessoas mais influentes do mundo.

 A tragédia, a paixão da opinião pública, o carisma de Malala e o entusiasmo dos media trataram de a tornar num mito da luta pelos direitos das mulheres e do acesso à educação. Para a História ficam as suas imortais palavras: “Uma caneta, uma criança e um professor podem mudar o mundo”.

EMMA WATSON

emma watson Quando me deparei com a jovem brilhante Hermione Granger (“it’s ‘leviosa’, not ‘leviosar’!”) nos filmes da saga Harry Potter, estava longe de imaginar que estava a olhar para uma futura Embaixadora da Boa Vontade das United Nations Entity for Gender Equality and the Empowerment of Women. A personagem criada por J. K. Rowling catapultou-a para a fama, seguindo-se os editoriais de Moda, a campanha para a Burberry e inclusive um videoclipe – “Say you don’t want it” dos One Night Only. Nada de surpreendente para uma jovem mulher que revelava talento, beleza e vontade de aprender – Watson detém um bacharelato em Literatura Inglesa. Apesar do percurso promissor, nada fazia antever a notoriedade que Watson traria ao movimento #HeforShe – uma iniciativa dirigida aos homens que promove a igualdade do género, numa luta que também é deles.

O momento que incendiou as redes sociais ocorreu a 20 de Setembro – data de lançamento da campanha – quando Watson discursou na sede da ONU, em Nova Iorque. Um discurso que colocou abertamente o dedo na ferida: a má reputação do feminismo e a consequente renitência das pessoas em assumirem-se como feministas. Watson afirmou: “Eu decidi que era uma feminista, o que me parecia simples. Mas a minha pesquisa recente mostrou-me que o feminismo tornou-se numa palavra impopular. As mulheres estão a escolher não identificar-se como feministas. Aparentemente, estou entre as fileiras de mulheres cujas expressões são encaradas como muito fortes, muito agressivas, isolantes e anti-homens. Desinteressantes, até. Quando é que a palavra se tornou tão desconfortável?”.

Uma pergunta pertinente quando nomes como Taylor Swift, Lady Gaga ou Sarah Jessica Parker se recusam a rever-se na palavra “feminista”. A não identificação de muitas celebridades com o feminismo tem sido um terreno fértil, alimentando debates e propiciando discussões que apontam a ignorância e a vontade de agradar os outros como os factores por detrás dessa postura. Mas a pergunta para um milhão de euros é, na verdade: é assim tão importante assumir-se como feminista? Não basta sê-lo? Talvez a jovem Emma ajude a esclarecer: “E se vocês ainda odeiam a palavra, não é a palavra que é importante. É a ideia e a ambição por trás dela (…) Convido-vos a dar um passo em frente, a serem vistos e a perguntar-vos a vós mesmos: “Se não eu, quem? Se não agora, quando?”.

Elementar, minha cara Watson.

ANITA SARKEESIAN

anita sarkeesian

É difícil compreender a real dimensão de um problema até se fazer parte dele. Que o diga Anita Sarkeesian, investigadora e entusiasta de videojogos. Autora do web blog “Feminist Frequency”, produziu as séries de vídeos Tropes vs. Women e Tropes vs. Women in Video Game, em que analisa os estereótipos da representação feminina nos media. Mas foram as suas minuciosas análises às narrativas tradicionalmente machistas dos videojogos que revolucionaram a vida de Sarkeesian, valendo-lhe, alegadamente, ameaças de morte e violação. A especialista teve, inclusive, de cancelar uma palestra que ia conduzir no estado americano do Utah, na sequência de uma ameaça anónima de um massacre.

Momentos no mínimo conturbados que têm assombrado a vida de Sarkeesian, e que apenas reforçam a ideia de que há meninos que ainda não querem partilhar um recreio que há muito deixou de ser exclusivamente deles – e cujos choros e protestos apenas confirmam precisamente a teoria a que se opõem.

Mas como o que tudo o que é polémico vende, o ódio dirigido à investigadora tornou-a num nome apetecível para os media, catapultando-a do nicho da imprensa especializada para a agenda mediática global. O resultado? Entrevistas e editoriais em publicações como a Rolling Stone ou o New York Times – tendo inclusive sido convidada para o programa (entretanto extinto) “The Colbert Report”. Timidamente, as distinções também foram surgindo: em 2013, a Newsweek e o The Daily Beast nomearam Sarkeesian uma das “125 Women of Impact”. No ano seguinte, foi galardoada com o Ambassador Award, na 14ª edição dos Annual Game Developers Choice Awards, pelo seu trabalho sobre a representação feminina nos videojogos. No mesmo ano, a prestigiada The Verge nomeou-a uma das 50 pessoas mais importantes na intersecção da tecnologia, arte, ciência e cultura.

Mas o verdadeiro poder do nome Anita Sarkeesian sente-se em cada fórum, tweet ou publicação. Como um verdadeiro boss, impõe-se pelas reacções viscerais, positivas ou negativas, que invoca nos internautas. Afinal, quando muitos gamers estavam preocupados em impedi-la de entrar no jogo, já ela tinha feito level-up.

BEYONCÉ KNOWLES

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Foi com alguma hesitação que incluí a ex-vocalista das Destiny’s Child nesta lista. O nome Beyoncé tem sido associado a tantas e variadas modas que me levou a considerar se a sua ligação ao feminismo não seria apenas mais uma. Mas este não é um artigo sobre a legitimidade do feminismo: é um artigo sobre personalidades que o colocaram nas primeiras páginas. E se há algo em que “Queen B” é exímia é em monopolizar atenções e protagonizar manchetes. Por isso, só quem vive numa cave sem televisão ou Internet é que não viu, com todas as letras, a palavra “FEMINIST” que, em Agosto de 2014, surgiu no ecrã gigante por trás da cantora, no final da sua performance nos MTV Video Music Awards.

Foi um dos momentos mediáticos mais comentados do ano, desembocando no editorial, assinado por Beyoncé, “Gender Equality Is a Myth!”. Publicado no The Shriver Report – uma iniciativa que visa sensibilizar a sociedade para os problemas das mulheres e suas famílias – o editorial sublinha a desigualdade entre homens e mulheres, relembrando, nomeadamente as disparidades salariais – nos EUA, as mulheres continuam a ganhar apenas 77 cêntimos por cada dólar auferido por um homem. E foi precisamente apoiada nos números que Beyoncé lançou o repto: “As mulheres constituem mais de 50% da população e mais de 50% dos eleitores. Temos de exigir que todas recebamos 100% das oportunidades.”

PATRICIA ARQUETTE

patricia arquette

À semelhança de Emma Watson, este é um nome que, há pouco mais de um mês, não me ocorreria colocar numa lista de personalidades que deram voz ao feminismo. Mas quando se desperta para a segunda-feira a seguir aos Óscares com toda a Internet a falar sobre o discurso de Patricia Arquette, percebe-se que algo importante aconteceu. A actriz aproveitou o discurso de aceitação do Óscar de Melhor Actriz Secundária pelo seu papel no filme “Boyhood” para exigir igualdade de salários e direitos para todas as mulheres americanas. Uma afirmação que lhe valeu uma reacção tão ou mais mediática: a de Meryl Streep, que, de pé, apontava para Arquette, gritando “Yes! Yes!”.

Mais tarde, já na conferência de imprensa que sucedeu à cerimónia, a actriz observou: “E está na altura de todas as mulheres na América, e todos os homens que amam as mulheres, e todos os homossexuais, e todas as pessoas de cor por quem todos temos lutado, de lutarem por nós agora!”. Um comentário acolhido com renitência por algumas plataformas mediáticas, que o consideraram fracturante – na medida em que parece acentuar as diferenças entre os grupos referidos, separar as batalhas que todos travam e legitimar os problemas do “feminismo branco” como sendo mais prementes. Este é um resumo das leituras que podem ser encontradas na Internet – leituras que me parecem muito profundas para um discurso improvisado.

E agora outra leitura: e se Arquette se dirigiu a cada um dos grupos ditos minoritários que vivem na América porque a retórica nos ensina que é esse o meio mais eficaz de chegar às pessoas? A reacção da própria ao feedback negativo surgiu em vários tweets, em que reforça a importância da união de todas as mulheres na luta pela igualdade. E se estavam a pensar questionar a legitimidade de uma actriz consagrada em reclamar tal direito, Arquette tem um tweet para vocês: “Não me venham falar de privilégio. Em criança vivi bem abaixo da linha de pobreza. Onde quer que esteja não me esquecerei da luta das mulheres”.

Por Margarida Cunha, in RTRO #31, que pode ser lida na íntegra aqui.

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