Especial 5º Aniversário – 5 Directores que estão a mudar o Mundo Editorial

A realidade das revistas há muito que se encontra desafiada pela gravidade das tecnologias e do seu cada vez maior imediatismo. Manter uma publicação em formato físico – outrora um selo de qualidade e atestado de profissionalismo – consiste hoje em travar batalhas diárias contra as redes sociais e contra o défice de atenção colectivo.

5 directores que estao a mudar o mundo editorial

Torna-se premente criar, mais do que uma publicação, uma identidade. Assim, por ocasião do 5º aniversário da RTRO e sem ordem definida, eis uma selecção de cinco directores de revistas de Moda e Lifestyle que partiram na aventura de repaginar o destino da imprensa especializada.

STEFANO TONCHI

W Magazine

stefano tonchi

O nome Stefano Tonchi pode não soar familiar mas é responsável por algumas das mais icónicas capas dos últimos anos. Tendo deixado a sua marca em publicações como Esquire, L’Uomo Vogue e fundado a T: The New York Times Style Magazine em 2004, o florentino chegou à W em 2010 – um período crítico para a publicação. Desde então, a revista tem sobressaído e arrecadado prémios graças sobretudo à Fotografia – as fotos de capa são autênticos hinos à intemporalidade, tal é o impacto das imagens.

Pouco dado a tradicionalismos – Tonchi considera que a tradição e o bom gosto são entraves à mudança – não hesitou em colocar Kim Kardashian na capa da W, muito antes de se especular sobre as capas da Vogue e da Paper. E se a publicação é conhecida pelo rol infindável de celebridades que desfilam nas suas páginas, Tonchi crê que o que distingue a W é a abordagem à Moda, que não se foca nas roupas ou nos objectos, mas no contexto que pode ser criado à volta destes. Para que saltem directamente das montras das lojas para os sonhos dos leitores.

KATE LANPHEAR

Maxim

Kate Lanphear

Sim, leram bem: Maxim, a revista masculina. Lanphear, conhecida pelo seu estilo rock e tom boy, construiu a sua carreira à volta do styling, o que se traduz num portefólio onde constam referências como Elle, T: The New York Times Style Magazine e vários desfiles de Moda. Podem, portanto, imaginar o choque que se abateu sobre o mundo editorial quando, em Setembro de 2014, Lanphear foi anunciada como a nova directora da Maxim. O que pode uma editora com um background tão cimentado em Moda trazer a uma revista que invoca uma imagética pautada por mulheres seminuas? Lanphear respondeu, numa entrevista ao site Refinery 29: “Queremos criar uma marca que celebre os homens, as suas histórias e os seus sucessos (…)”. Acrescenta ainda que se pretende veicular uma visão multidimensional da mulher, bem como construir nos leitores aspirações como o sucesso e a sofisticação.

O primeiro número sob a sua alçada – a edição de Março – denota claramente uma mudança de abordagem: há de facto uma mulher linda na capa, como é habitual, mas tudo o que pode ver-se é o rosto – as palavras “Come Closer” completam o convite. O que mudou? Kevin Martinez, publisher da revista, revelou à AdWeek: “O nosso rapaz cresceu. Tem 33 anos, está a começar a ganhar dinheiro e a olhar para a vida com outros olhos”.

JOANNA COLES

Cosmopolitan

joanna coles

Se a revista Maxim pode ser olhada de lado por muitos devido ao seu teor alegada e simplisticamente sexual, a mesma reputação é atribuída à Cosmopolitan. Liderada desde 1965 até 1997 pelo espírito revolucionário de Helen Gurley Brown, aquela que é provavelmente a revista feminina mais famosa do mundo construiu o seu legado à volta de chamadas de capa focadas em sexo, feminismo e trocadilhos pouco inocentes. O ano de 2012 foi de viragem para a marca: não só assinalou a morte da sua icónica directora Helen Gurley Brown como marcou a estreia de Joanna Coles nessa função. Uma escolha precedida, nomeadamente, por quatro anos à frente da Marie Claire, presenças habituais no programa Project Runway All Stars e reportagens no jornal Daily Telegraph.

E o que conseguiu Coles desde então? Além de segurar com estabilidade as 3 milhões de leitoras da revista, conseguiu duplicar o tráfego do site, traduzindo-se em 30 milhões de acessos. Mas o maior contributo que a britânica tem trazido à Cosmopolitan é qualitativo: em cima da mesa encontram-se agora artigos de fundo acerca de política, religião e sociedade – áreas que a “velha Cosmo” já cobria mas residualmente. Uma Cosmo mais madura, destinada, nas palavras de Coles ao The Guardian, “(…) à jovem lutadora, provavelmente saída da universidade, aturdida em dívidas e empréstimos, mas com grandes aspirações e a dúvida ‘Como é que vou fazer isto?’”.

ANNA WINTOUR

Vogue

anna-wintour

É uma escolha óbvia mas falar sobre directores proeminentes sem mencionar Wintour seria como falar sobre a história da música Pop sem mencionar Madonna. À frente da Vogue desde 1988, a londrina de 65 anos pode ser conhecida pelo seu carácter particularmente exigente e questionavelmente elitista; mas o que ficará para a História é o patamar a que elevou a Vogue: um patamar de exigência extremamente elevado, em que luxo e autoridade se misturam para produzir, mais do que uma revista, uma marca.

Embora lhe seja atribuída a iniciativa de colocar celebridades nas capas de revistas de Moda – criando uma tendência que perdura até hoje – as negociações de Wintour com a democracia do gosto e do consumo são raras. A sua predilecção por peles assim o atesta, bem como o carácter aparentemente inatingível dos sonhos vendidos em cada edição da Vogue. Para Wintour, não se trata de alargar o gosto mas sim de refiná-lo. Como se a Vogue fosse o último reduto do luxo autêntico, depurado de expectativas, interpretações e politiquices. Livre do politicamente correcto, do socialmente expectável e do universalmente alcançável. E se tal abordagem possa ser encarada como potencialmente contraprodutiva, a verdade é que seduz os puristas, reduzidos a um nicho fiel e ávido, mas igualmente os progressistas, que vêem na Vogue um curioso caso de estudo – um pouco como a nossa colega que veio do colégio privado. Aquela que nos parece um tanto betinha e desenquadrada mas cujos passos não conseguimos deixar de seguir.

SOFIA LUCAS

Máxima

SofiaLucas

Uma das minhas secções preferidas nas revistas é o editorial. Depois da capa, é o primeiro contacto com o leitor, a oportunidade de seduzi-lo ou perdê-lo; o momento em que a autoridade máxima da revista se dirige directamente ao seu público. Por isso, quando algum(a) director(a) consegue ir além da tarefa básica de descrever o conteúdo da revista e prender o leitor naquela única página que lhe é reservada, sabemos que o caso é sério. E os editoriais de Sofia Lucas são um caso sério de escapismo sob a forma consumada.

Os leitores da Máxima sabem que a cada edição mensal corresponde um tema, social ou culturalmente relevante. Foi essa abordagem que me levou a crer, quando me deparei com “100 Homens Sem Preconceitos”, no ano passado, tratar-se apenas do tema do mês; uma iniciativa pertinente e bem pensada mas com tempo e espaço claramente definidos: a edição de Março. É por isso com agradável surpresa que descubro que a iniciativa se manteve até hoje, materializando-se numa exposição e, brevemente, em livro. Afinal, estamos a falar de uma campanha que pretende colocar os nossos mais icónicos homens a calçar saltos altos num país pouco dado a modas e em que o feminismo ainda é uma grande pedra no sapato.

Abordar o feminismo faz, aliás, parte da agenda (por vezes forçada) de qualquer revista feminina que se preze. Portanto, quando a directora da Melhor Publicação Feminina de 2014 (segundo a Meios & Publicidade) avança na decisão de o transformar, mais do que em tema do mês, numa iniciativa à escala global, é preciso parar um pouco e prestar atenção. Porque o passo pode parecer pequeno mas o salto é alto. Porque o tema é desconfortável e provoca bolhas. Porque o lugar do preconceito é mesmo aí: sob a elegância desarmante do verniz de um sapato vermelho. É algo que faz sentido. No mundo de Sofia, no meu e, assim espero, no nosso.

Por Margarida Cunha, in RTRO #31, que pode ser lida na íntegra aqui.

rtro 31 capa

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s