Fifty Shades of Grey – O Fenómeno – Parte 3

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CRÍTICA AO FILME

(Pode conter SPOILERS)

Desde o primeiro minuto do filme, uma coisa fica clara, ao contrário de muitas bandas sonoras, a de “As cinquenta sombras de Grey” faz, de facto, parte do filme. Desde os hits de Beyoncé, que são o som de ambiente das cenas mais tórridas e ousadas, ao clássico de Annie Lennox, “I put a spell on you” que dá o mote ao filme e protagoniza a primeira cena, o filme avança com o auxílio de um conjunto de músicas escolhidas a dedo que são parte integrante das cenas que protagonizam.

Quem não tiver lido os livros provavelmente sairá da sala de cinema a pensar que algo lhe escapou. Ficou aparentemente a faltar algum background nas personagens principais, que leva a não compreender algumas das suas motivações, apesar de ser clara a evolução das mesmas ao longo das duas horas de filme. Mas, no essencial está lá tudo o que atrai na saga. Quem tiver lido os livros, dificilmente sairá da sala de cinema desapontado, afinal é claro que E. L. James teve um papel preponderante naquilo que acabou por ser filmado, no que diz respeito às cenas escolhidas, mas, sobretudo, em termos de diálogos (alguns demasiado simplistas e provocadores de algumas gargalhadas em plena sessão de cinema). No entanto, pode haver quem estivesse à espera de algo mais (como eu) e a quem a versão cinematográfica pareceu apenas a tradução do livro em imagens.

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Entrei a pensar que Jamie Dornan era o ator perfeito para o papel Christian e com muito receio que Dakota Johnson não fosse a Anastasia mais acertada. No fim, as emoções são mistas: ela encarna bem o personagem a quem até dá novas facetas; já ele demonstra-se demasiado taciturno de início ao fim (o que apesar de fiel em relação ao livro, deixa algo a desejar). É criado um certo romantismo entre Grey e Anastasia que talvez não se sinta tanto no livro mas que faz com que sintamos uma certa empatia com o casal. Grey apresenta-se como um homem culto, inteligente e atencioso que rapidamente nos fascina a nós e a Anastasia, principalmente até conhecermos o seu outro lado bastante (demasiado?) controlador. A sua riqueza e sucesso são claramente retratados ao longo do filme, Christian é dono de um helicóptero, avião privado, uma luxuosa penthouse, obras de arte valiosas e uma armada de carros digna de um coleccionador. Talvez tenhamos mais empatia por Ana, que no filme é muito mais expressiva e tem um sentido de humor delicioso, demonstrando-se capaz de tomar decisões por si própria, ao contrário do que sucede no livro (talvez por este ser narrado por ela na primeira pessoa e termos acesso a todos os seus pensamentos e debates internos, deixando-nos por vezes um pouco frustrados e irritados com ela e todas as suas indecisões).

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Mas tratando-se de uma história centrada não só na relação, mas também nos jogos sexuais entre Christian e Anastasia, falemos então das cenas mais controversas: as cenas de sexo. Muitas foram as críticas à relação retratada entre Christian e Anastasia, descrita por muitos como uma relação abusiva e doentia, onde falta consentimento da parte dela. Mesmos as práticas de BDSM retratadas foram consideradas por alguns experts na matéria como irreais e pobremente executadas. Facto é que E. L. James afirma ter feito muita pesquisa aquando da escrita do livro para conseguir retratar o mais fielmente possível essa faceta sexual. Fica claro em “As Cinquenta Sombras de Grey” que, nesse universo do BDSM, o consentimento é um requerimento, havendo um período de pré-negociação em que as partes envolvidas discutem ao pormenor aquilo que gostam e aceitam em termos sexuais, e o que esperam da relação. E é exactamente isto que acontece quando Christian dá a Anastasia um contrato para ela assinar que estabelece os limites da relação (e que ela decide não assinar). Por isso, em termos de consentimento, não pode haver dúvidas, fica claro que ela lhe pode claramente dizer que não (especialmente no filme, em que tal de facto acontece). Não há nada, pois, a meu ver, de problemático em termos de consentimento sexual no filme, talvez o problema seja o ultrapassar de limites de Christian fora das quatro paredes do quarto. Como a própria personagem de Christian diz, ele não consegue ficar longe de Anastasia. Ele é retratado como alguém que é obcecado pelo controlo mas que, pouco a pouco, o vai perdendo porque se apaixona. O filme romantiza essa obsessão de Christian: ele tenta impor regras para criar distância entre eles, mas Anastasia não concorda e, então, ele volta atrás e quebra as mesmas regras que ele próprio impôs.

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As cenas de sexo são de bom gosto e estão bem filmadas. Sensuais, sem serem demasiado visuais ou óbvias, com o recurso à câmara lenta em algumas ocasiões, deixando à imaginação do espectador o que no ecrã fica apenas sugerido. Quanto aos tão falados chicotes e outros brinquedos sexuais do universo do sadomasoquismo não são de todo centrais à obra cinematográfica, para além do contrato de dominador/submissa que Christian insiste que Ana assine, pouco há no filme que realmente seja chocante nesse sentido. Há (bastante) nudez por parte de Dakota Johnson apenas, já que Dornan assinou um contrato que impediu que o filmassem em nu frontal. Como qualquer filme, pode agradar a uns e desagradar a outros. As cenas no quarto da dor (apelidado “red room of pain” por Anastasia) são as mais provocadoras e o espaço está sem dúvida bem construído; é impactante quando o vemos no ecrã pela primeira vez, tal como devia ser já que ele é símbolo de tudo aquilo que é transgressor e obscuro na personagem de Christian Grey.

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Duas horas de filme, que parece constantemente estar a caminhar rumo a uma momento mais dramático mas que deixa a sensação de ser um tanto anti-climático (que dizer da imagem com que termina o filme?). É um romance ortodoxo por um lado e pouco ortodoxo por outro, que apesar de toda a controvérsia, vale a pena ver. Uma história de sedução, com humor e inteligência em que dois pólos se atraem. A cena do planador é representativa daquilo que o filme na sua essência retrata: a experiência e o controlo de Christian vs. a juventude, ingenuidade e o desejo de libertação de Anastasia. Para lá das cenas de sexo, da sua intensidade, duração ou nudez, para lá da controvérsia sobre se existem mesmo práticas sadomasoquistas ou cenas de violência doméstica no filme, “As Cinquenta Sombras de Grey” é, para mim, essencialmente uma interessante história de amor.

 

O que o futuro nos reserva

“As Cinquenta Sombras de Grey” depressa passarão a ser cento e cinquenta. A realizadora Sam Taylor-Johnson confirmou numa entrevista que os dois restantes livros da trilogia literária serão também adaptados ao cinema. Rumores ainda por confirmar dizem que o primeiro dos filmes, “As cinquenta sombras mais escuras”, poderá chegar aos cinemas já no próximo ano de 2016. Também em entrevistas as estrelas Jamie Dornan e Dakota Johnson demonstraram interesse em participar nas duas sequelas, sendo que essa deverá ser uma das estipulações nos contratos que assinaram com a Universal. Recentemente têm surgido rumores que indicam que a realizadora Sam Taylor-Johnson poderá não regressar no próximo filme, em parte devido à má relação que teve durante as filmagens com a escritora e produtora executiva E. L. James.

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Para lá do universo Fifty Shades, mas em parte devido a ele os leitores por todo o mundo têm demonstrado um interesse cada vez maior pela literatura erótica. Em Portugal, tal facto é facilmente corroborado com escritoras como Sylvia Day e Maya Banks a serem cada vez mais conhecidas e obras como “A submissa” de Tara Sue Mae ou “ O inferno de Gabriel“ de Sylvain Reynard a subirem rapidamente na lista de mais vendidas. Em paralelo, nos Estados Unidos, cada vez mais romances eróticos estão a ser adaptados ao pequeno ou grande ecrã.

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Outro fenómeno que se verifica, particularmente nos Estados Unidos da América, é a ascensão de histórias consideradas fan fiction ao mundo editorial. Cada vez mais, editoras e agentes literários procuram novos talentos em sítios da Internet como o Wattpad, o fanfiction.com ou o mais recente Kindle Worlds. De facto, “As Cinquenta Sombras de Grey” foi facilmente lançado no mercado literário devido aos devotos fãs que obteve quando não passava de uma história de fan fiction na Internet. Seguindo as pegadas da obra de E. L. James estão, por exemplo, Sophie Jackson e Anna Todd. A trilogia “Pound of flesh” de Sophie Jackson, também uma fan fiction de “Crepúsculo”, atingiu mais de 4 milhões de leitores online e já tem garantida a edição literária no mercado americano, assim como a adaptação cinematográfica para breve. Também Anna Todd, depois de a sua história “After”, cuja personagem principal é Harry Styles dos One Direction, conseguir mais de 1 milhão de visualizações em apenas 2 meses, conseguiu a publicação de quatro livros inseridos na saga.

Curiosidades

Em Portugal, o livro “As Cinquenta Sombras de Grey” já vai na sua 34ª edição.

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Nomes como Michael Fassbender, Chris Pine ou Ryan Gosling foram considerados para o papel de Grey e Lucy Hale, Jennifer Lawrence ou Emilia Clark para o de Anastasia.

Os dois trailers do filme foram os mais vistos em 2014.

Parte da mobília da casa de Grey foi feita em Portugal, mais exactamente por uma empresa de Rio Tinto.

Dakota Johnson é filha dos actores Melanie Griffit e Don Johnson e neta de Tippi Hedren.

O guião inicial tinha muitas mais cenas de sexo, mas a produção acabou por decidir cortar muitas delas.

Jamie Dornan visitou várias casas de bondage para melhor se preparar para o papel de Christian Grey.

O guião foi decorado pelos actores em apenas cinco dias.

Na audição final os actores principais tiveram de contracenar no primeiro e último capítulo do livro.

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Beyoncé fez uma versão especial do seu hit “Crazy in Love” de propósito para o filme.

Por Ana Cristina Silva, in RTRO #31, que pode ser lida na íntegra aqui.

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