Especial 5º Aniversário – 5 Desafios das Revistas de Moda

Pode um universo aparentemente tão superficial, como o da Moda, atravessar fases críticas? Num mundo feito de tecido e purpurina, o que pode ser considerado um problema fracturante?

Na edição que celebra o 5º aniversário da RTRO, identificámos 5 problemáticas que, recorrentemente, têm afectado a imprensa especializada nos últimos tempos.

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A FALTA DE DIVERSIDADE

O universo da Moda não é exactamente conhecido pela pluralidade. A (por vezes extrema) magreza das modelos ou o predomínio de rostos caucasianos nas passerelles são apenas duas das várias tendências que motivam duras críticas por parte do público em geral. Ainda assim, foi com surpresa que descobri que Rihanna é a primeira personalidade negra a representar comercialmente a Dior. Em 2013, como foi noticiado no blog da RTRO, a revista australiana Marie Claire retocou o corpo de Beyoncé, no sentido de o seu rosto e cabelo parecerem mais claros. O mesmo sucedeu à actriz da série Scandal, Kerry Washington, na capa da In Style de Março deste ano – onde está praticamente irreconhecível.

 diversidade

Contudo, os problemas da representação feminina nos media especializados não se resumem à cor. O peso continua a ser um esqueleto no armário da Moda. Em 2013, abordámos no blog o curioso caso da capa que a actriz Melissa McCarthy protagonizou para a Elle – uma capa em que McCarthy, que tem excesso de peso, surge envolvida por um longo casaco que parece pretender esconder as suas formas. A mesma abordagem conservadora pode ser apreciada em capas protagonizadas pela cantora Adele ou pela actriz Octavia Spencer.

Numa indústria que confere primazia às cores, formas e texturas das roupas e acessórios, não deixa de ser intrigante a falta de originalidade (ou vontade) com que esses elementos (não) são conjugados quando aparecem sob a forma de ser humano.

O ABUSO DO PHOTOSHOP

O programa mágico de edição de imagem é provavelmente a caixa de Pandora da indústria da Moda. Ferramenta de trabalho essencial, o Photoshop, e particularmente o seu uso excessivo, têm estado no centro do debate de todos os quadrantes sociais. Num universo que se pretende escapista, qual o limite entre o real e o fantasioso? Até que ponto é que os retoques excessivos nos rostos e corpos contribuem para cimentar uma concepção de beleza constrangedora e padronizada? Se o exagero é permitido – e se é por natureza excessivo – quais os limites que lhe podem ser impostos?

 photoshop

Mais do que uma questão puramente visual, a reacção do público ao recurso abusivo ao Photoshop denota um problema mais latente: a relação dos leitores com as revistas e os ídolos que as povoam. Queremos ver mulheres e homens bem penteados, maquilhados e produzidos. Mas não a ponto de não conseguirmos imitá-los. Queremos que tenham sucesso e singrem na vida. Mas que não se esqueçam das suas origens nem se deixem deslumbrar. Queremos que nos levem para lá da fantasia através do seu trabalho e aparições públicas. Mas que saibam também errar e ser humanos de vez em quando. Queremos que nos vendam um sonho cheio de verniz, brilho e cor. Mas um sonho que consigamos comprar numa cadeia de grande consumo. Estará na altura de retocarmos as nossas expectativas?

 

A FRAGILIDADE DAS MODELOS

Em 2014 estalou aquela que foi provavelmente a polémica do ano: várias modelos desconhecidas vieram a público acusar o famosíssimo fotógrafo Terry Richardson de abusar do seu estatuto para as coagir sexualmente, durante as sessões fotográficas. Desde investidas não solicitadas a fotos de teor exageradamente sexual, modelos como Jamie Peck ou Emma Appleton viram-se confrontadas com um cenário de falsa escolha: ou se deixavam fotografar nos termos (sexuais) de Richardson ou simplesmente recusavam o trabalho, provavelmente perdendo uma grande janela de oportunidade numa indústria ferozmente competitiva. Vários destes episódios terão ocorrido sem o conhecimento prévio das protagonistas e/ou sem a presença dos seus representantes, colocando-as numa posição vulnerável e condicionada.

 fragilidade

O caso foi amplamente discutido nos media digitais, tendo inclusive merecido um extenso artigo de fundo na revista New York. Afinal, embora boa parte da obra de Richardson seja conhecida pelos seus excessos, a sua crescente colaboração com as principais revistas de Moda – e a notoriedade que daí adveio – provocaram uma onda de protestos e desconforto generalizado nas redes sociais. Os pedidos de boicote ao seu trabalho fizeram-se ouvir um pouco por toda a Internet. Já a resposta da indústria foi bem mais comedida – nos raros casos em que se pronunciou. A empresa canadiana de sapatos e acessórios Aldo anunciou que não pretendia trabalhar com o fotógrafo no futuro – a mesma resposta dada pela Vogue.

No final, a poeira assentou e, aos olhos da indústria, a polémica limitou-se a confirmar a personalidade (no mínimo) excêntrica de Richardson. Há que virar a página para preparar a próxima edição.

O que provavelmente ficará esquecido até ao próximo escândalo é o quão desprotegidas as modelos se encontram num universo que privilegia os seus rostos e corpos em detrimento das suas vozes.

AS ESCOLHAS DE CAPA

Por vezes, observar as capas de revistas da especialidade é um bom exercício de argumentação. Eu, pelo menos, dou por mim a problematizar a escolha de Kristen Stewart para a capa de publicações de referência, como a W, a Vogue ou a Vanity Fair. O mesmo pode ser dito de Dakota Johnson, a actriz de Fifty Shades of Grey, e das suas aborrecidas capas para revistas como a Elle ou a Vogue. Considerando a total ausência de talento de Stewart e as provas que Johnson ainda terá de dar no futuro, as escolhas de capa de publicações da indústria não deveriam recair sobre figuras cujo relevo cultural vá para além de um filme (de qualidade duvidosa)? É verdade que, para a imprensa especializada, se torna vital acompanhar o pulsar do entretenimento, indo ao encontro do que o público está a consumir agora. Mas não compete também a essa imprensa agir como filtro modelador do que é consumido pelos leitores, indo um pouco além dos fenómenos imediatistas? Estaremos a assistir a uma mudança de paradigma em que o imediatamente relevante se sobrepõe ao substancial, cultural ou socialmente relevante? Onde se traça a linha entre criar a tendência e segui-la? Na necessidade de obter lucro, provavelmente.

 escolhas de capa

Não deixa é de ser desconcertante que uma indústria que não sabe o que fazer com cores e formas diferentes não tenha qualquer problema em conferir protagonismo a figuras de relevância duvidosa. Talvez o talento possa ter rosto, corpo e presença. Ou até nem estar lá. Não pode é ter peso. Ou cor a mais.

A ERA DIGITAL

A profecia do fim das revistas é quase tão premente como aquela que previa que, por esta altura, já circularíamos em carros voadores. Ambas apresentam uma ponta de verdade mas, na sua grande parte, falharam. As pessoas ainda compram revistas, as escolhas de capa ainda alimentam discussões apaixonadas e o mundo do entretenimento ainda pára quando são lançadas as edições de Setembro. Contudo, cativar a atenção de um público com cada vez mais escolha e cada vez menos capacidade de retenção permanece uma tarefa exigente. Se a Internet oferece actualidade e imediatismo, qual o valor que as revistas podem agregar? Ao The Guardian, a directora da Cosmopolitan americana, Joanna Coles (de quem falamos nesta edição), afirmou que as revistas preenchem um papel de curadoras, oferecendo informação precisa e confiável, do tipo que não pode ser encontrada na Internet. Pode também falar-se do factor saudosista/sensorial: as revistas digitais (como a RTRO) não podem ser folheadas e não podemos sentir nelas o cheiro a tinta. Nem decoram casualmente a mesa da sala.

 era digital

Acima de tudo, a perspectiva de Coles faz sentido. Continuamos a precisar de fontes confiáveis, de pessoas que saibam do que estão a falar, de leituras que vão para além dos 140 caracteres e de opiniões que transcendam o “like”. Continuamos a precisar de saber que há uma previsibilidade na chegada dos conteúdos, uma periodicidade que nos dê tempo para absorver e deixar marinar. E ansiar por mais.

Por Margarida Cunha, in RTRO #31, que pode ser lida na íntegra aqui.

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