More Than a Woman – Em Memória de Aaliyah – 1979 – 2001

Em 2015, precisamente no dia 25 de Agosto, assinala-se o décimo quarto aniversário da morte de Aaliyah. Com apenas 22 anos, chegavam ao fim a vida e a carreira de uma intérprete que estava precisamente a atingir a maturidade artística.

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2001 até estava a ser um bom ano. Aaliyah tinha lançado o seu terceiro e auto-intitulado álbum, do qual foi retirado o comercialmente bem-sucedido single de apresentação “We Need a Resolution” – uma faixa R&B viciante que contou com a produção e colaboração de Timbaland. Aaliyah surgia após dois álbuns promissores que colocaram a cantora no radar da cultura urbana. “Age ain’t nothing but a number” – o seu trabalho de estreia lançado em 1994 – foi gravado quando tinha apenas 14 anos e deu ao mundo o seu primeiro grande êxito, o catchy “Back & Forth”. Escrito e produzido quase na totalidade por R. Kelly – que a tinha vinculado à Jive Records dois anos antes – o álbum foi assombrado pelas alegações de um casamento ilegal entre Aaliyah e o produtor.

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Dois anos depois, seguiu-se One in a Million, um trabalho com a marca de Timbaland e Missy Elliott, dois dos nomes mais proeminentes da música R&B. Num ano marcado pelos fenómenos Pop – tais como Spice Girls e Backstreet Boys – One in a Million oferecia ao público um sabor diferente: um Hip Hop e R&B embebidos nas raízes da cultura urbana, mas abrindo terreno para os anos seguintes, em que o R&B viria a dominar os tops da MTV. Aí por volta de 1999 não repararam na presença cada vez mais forte de nomes como Destiny’s Child, En Vogue, Brandy ou 702? Agora sabem que não foi por acaso.

A sempre criativa e inovadora “Baby Girl” – como Timbaland carinhosamente a apelidava – sentiu-se impelida a experimentar novos voos, pelo que a chegada ao cinema era inevitável. O ano 2000 marcou a sua estreia no grande ecrã, ao lado de Jet Li, em “Romeo Must Die” – um filme de acção livremente inspirado no clássico de William Shakespeare.

Embora a crítica não tenha adorado a película, esta continha, na dose certa, os ingredientes para criar um clássico de acção: lutas de artes marciais, romance, comédia e disputas territoriais entre negros e chineses. Aaliyah cumpriu bem o seu papel – o de filha do líder Isaak O’Day (Delroy Lindo) – criando uma química interessante e pouco comum entre a sua personagem e a de Jet Li (que, na história, pertencia a uma família rival). De todos os pares românticos que já vi em filmes, a dupla Aaliyah/ Li é um dos mais curiosos, engraçados e desarmantes. Ao contrário de muitos outros casais, este é um dos que queremos mesmo que fiquem juntos no fim.

UNSPECIFIED - DECEMBER 31:  Medium shot of Jet Li as Han Sing holding wrist of Aaliyah as Trish O'Day.  (Photo by Warner Bros./Getty Images)

Como era expectável, Aaliyah ofereceu também ao filme um contributo musical. Das quatro faixas com o seu nome produzidas para a banda sonora, uma destaca-se até hoje como um verdadeiro hino da viragem do milénio: a eterna “Try Again”. Produzido por Timbaland, o single chegou ao topo nas listas Billboard Hot 100 e Hot 100 Airplay – esta última baseando-se apenas no número de vezes que uma música passa nas rádios. O videoclipe de “Try Again”, que tantas vezes passou nos canais temáticos, contava ainda com a participação de Jet Li.

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Entretanto, Aaliyah viria a participar em mais um filme: Queen of the Damned – adaptação do terceiro capítulo da trilogia de vampiros de Anne Rice. O período de filmagens coincidiu com a gravação do seu derradeiro álbum, levando a cantora a filmar de dia e a gravar à noite – o que a deixou extenuada. No entanto, “Baby Girl” nunca chegaria a conhecer o desempenho comercial de Queen of the Damned – o filme estreou apenas em 2002, quase seis meses após a sua morte.

Ainda assim, 2001 foi suficiente para que a artista saboreasse um pouco do sucesso que viria a ter o seu terceiro trabalho. Aaliyah começou com o pé direito: “We Need a Resolution”, com a assinatura de Timbaland, marcava o início de uma sonoridade que parece nova até aos dias de hoje. As influências electrónicas e orientais dão ao álbum uma frescura que transcende os limites do tempo, tornando insignificantes os seus 14 anos de idade.

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“More Than a Woman” foi o single que se seguiu. Apesar de ter começado a promovê-lo, Aaliyah já não se encontrava entre nós quando o vídeo foi divulgado, em Novembro de 2001. Filmado em Agosto, “More Than a Woman” pretendia ser um passo rumo ao sucesso comercial de Aaliyah.

No mesmo mês, a busca de um hit de Verão que destacasse as vendas levou as editoras Blackground e Virgin a apostar na faixa “Rock the Boat”. Aaliyah e a sua equipa embarcaram num voo para as Bahamas, onde viria a ser filmado o vídeo do single. No entanto, a artista nunca regressaria. Na viagem de retorno, o avião despenhou-se pouco depois de ter descolado, conduzindo à morte uma das mais promissoras vozes do R&B, juntamente com mais oito pessoas.

As investigações do acidente concluíram que o aparelho viajava com 300kg acima da carga permitida, bem como transportava uma pessoa em excesso. O piloto, além de não estar licenciado para voar, terá consumido cocaína e álcool – uma vez que foram encontrados vestígios dessas substâncias no sangue, por ocasião da autópsia.

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Apesar das circunstâncias trágicas que o rodearam – ou talvez precisamente por causa delas – o vídeo de “Rock the Boat” viria a conhecer a luz do dia em Janeiro de 2002. Nele, podemos ver Aaliyah e as suas bailarinas a dançarem sensualmente num iate, vestidas de branco contra um céu azul polvilhado de nuvens. No final, a cantora surge debaixo de água a nadar em direcção ao céu.

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Ficaram palavras por dizer. Coisas por fazer. Aaliyah já tinha filmado parte da sua participação em Matrix Reloaded e deveria aparecer também em Matrix Revolutions. O inesgotável fascínio que a morte exerce sobre as massas levou-as a correr às lojas para comprar o derradeiro álbum de originais da cantora. Em 2009, já tinham sido vendidas mais de 3 milhões de cópias de Aaliyah. Seguiram-se os tributos e, em 2002, a compilação que reúne as músicas mais marcantes da cantora, bem como seis faixas inéditas: I Care 4 U.

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Pensar sobre o legado de Aaliyah é um exercício nostálgico mas consensual. Os peritos da indústria destacam-na como uma referência na redefinição do género R&B dos anos 90, tendo o seu álbum One in a Million sido considerado um dos mais influentes da década nesse segmento.

É impossível não nos questionarmos acerca do percurso da “Baby Girl”, não tivesse a sua vida sucumbido à tragédia. Como se enquadraria ela na cultura actual? Até que ponto seria influente nesta era de likes, tweets e instagrams? Hoje com 36 anos, continuaria a contribuir com a sua voz dócil e aveludada para o vanguardismo da indústria musical? Perguntas impossíveis de responder mas que deixam uma certeza: a sua voz faz falta. Porque era uma num milhão. E porque Aaliyah era decididamente muito mais do que uma mulher.

Por Margarida Cunha, in RTRO #32, que pode ser lida na íntegra aqui.

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