Minaj VS Swift – Retrato de uma Indústria Racista?

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Lembram-se de “Anaconda”? O polémico vídeo de Nicki Minaj, estreado no Verão de 2014, foi um dos fenómenos da temporada, motivando GIFs, reinterpretações, paródias e um recorde de visualizações na plataforma de vídeos VEVO – com perto de 20 milhões de acessos nas primeiras vinte e quatro horas.

O single – que recupera a batida contagiante de “Baby Got Back (I Like Big Butts)”, de Sir Mix-A-Lot – é uma ode aos rabos grandes, sendo por isso que no vídeo vemos Minaj e as bailarinas a abanarem-se sensualmente num cenário exótico, repleto de referências eróticas (tais como bananas e águas de côco a escorrer). O refrão não deixa margem para dúvidas quanto ao tema da música: “My Anaconda don’t want none unless you got buns hun. Oh my Gosh! Look at her butt!”. A testar a teoria de Minaj surge o rapper Drake, perto do final do vídeo, a quem a artista oferece uma lap dance – na qual se destaca a incredulidade do cantor.

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Um ano depois – e na impossibilidade de ser considerado para os MTV Video Music Awards (VMAs) 2014 devido ao prazo das candidaturas – “Anaconda” surge agora nomeado para os VMAs de 2015 nas categorias de Best Female Video e Best Hip Hop Video. A cereja (ou a banana) no topo do bolo, a nomeação para Video of the Year, não tocou a Nicki Minaj.

Indignada, a artista deixou alguns desabafos no Twitter: “Se eu fosse um ‘tipo’ de artista diferente, Anaconda seria nomeado para melhor coreografia e vídeo do ano” ou “Se o teu vídeo celebra mulheres com corpos muito magros, és nomeada para vídeo do ano… Não sou sempre confiante. Estou apenas cansada. As mulheres negras influenciam tanto a cultura pop mas raramente são premiadas por isso”.

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Identificando-se como o alvo de uma crítica que não lhe era dirigida, Taylor Swift respondeu: “Sempre te amei e apoiei. Nem parece teu virares mulheres umas contra as outras. Talvez um dos homens tenha ficado com a tua nomeação”. A intervenção de Swift foi a gota de água no oceano de críticas e respostas que se seguiriam. Katy Perry – que recentemente fez capa da revista Forbes na qualidade de “America’s Top Pop Export” – aproveitou a deixa e comentou: “Acho irónico que alguém use o argumento de virar as mulheres umas contra as outras enquanto lucra derrubando uma mulher…”. A indirecta diz respeito a “Bad Blood”, vídeo de Taylow Swift em que a artista lidera um exército de amigas célebres para derrubar uma ex-amiga que a traiu – e que está nomeado para, precisamente, Video of the Year. Especula-se que a ex-amiga seja Katy Perry, que alegadamente terá “roubado” alguns dançarinos à equipa de Swift.

Rivalidades à parte, uma coisa é certa: aquilo que Minaj pretendia ser uma crítica à atitude alegadamente racista da MTV rapidamente se tornou num mal-entendido entre artistas, para deleite dos media – que transformaram aquilo que podia ser um diálogo cultural numa briga de miúdas.

Afinal, o que correu mal?

 

O PODER DO TWITTER

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O Twitter é hoje uma ferramenta de intervenção social. As hashtags não são apenas asteriscos: representam grupos, ideias e movimentos. É, por isso, com naturalidade que plataforma se tornou, a par do Instagram e do Facebook, um meio privilegiado de comunicação directa entre artistas e fãs. É também por isso que mensagens, outrora prévia e minuciosamente filtradas por agentes e publicitários, são hoje debitadas, sem grande reflexão, nas redes sociais. Foi o que sucedeu no caso de Taylor Swift, o que chateou muita gente: vítima da sua ignorância, egocentrismo e do imediatismo do Twitter, a artista interveio numa batalha que não era sua.

É assim que um potencial diálogo sobre um problema social e cultural grave – o racismo subentendido por Nicki Minaj – é interpretado por uma artista branca como um insulto à sua pessoa – ou seja, ao desviar o assunto da rapper para si, Swift acaba por, ironicamente, provar o ponto de vista da primeira.

Uma dúvida subsiste: porque haveria Swift de depreender que o comentário de Minaj era sobre si?

UMA MÁQUINA CHAMADA TAYLOR SWIFT

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Taylor tem apenas 25 anos mas é hoje o nome mais sonante da música pop. Com mais de 40 milhões de discos vendidos e vários prémios na carteira, a loira americana de 1, 78m conquista admiradores através da sua música contagiante, postura acessível, constantes diálogos com os fãs e um estilo aparentemente desajeitado, a que os americanos chamam de “dorkly”. A imagem de Swift é vendida ao público como a rapariga quase perfeita que está plenamente consciente das suas “falhas” – o que a torna perfeita aos olhos dos seus seguidores.

Assim, e com letras que ilustram as vicissitudes da adolescência, Swift consegue o amor das massas infanto-juvenis, adquirindo uma influência apenas reservada às estrelas pop. Ah: já referi que Taylor namora com o produtor e DJ Calvin Harris? Não falta sequer o namorado famoso e bem-sucedido.

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Não é, por isso, de admirar que, quando a cantora se opôs à decisão da Apple de disponibilizar o serviço Apple Music gratuitamente durante três meses (não remunerando os artistas durante esse período experimental), a gigante tecnológica tenha recuado. Numa carta aberta redigida em Junho, Swift esclareceu que não era ela a principal penalizada pela iniciativa da Apple: “Isto é sobre o novo artista ou banda que acabou de lançar o seu primeiro single e não será pago pelo seu sucesso. Isto é sobre o jovem compositor que conseguiu a sua primeira oportunidade e pensou que os direitos de autor do seu trabalho o livrariam da dívida”.

Desconhecem-se as verdadeiras intenções da artista, mas a verdade é que o Twitter reconheceu nela o potencial de justiceira, com utilizadores a dirigir-lhe pedidos como “Ok, a seguir dedica-te à brutalidade policial e ao controlo de armas”.

 

FEMINISMO VS RACISMO

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Com um percurso destes, devemos censurar Swift por achar que o comentário de Nicki Minaj lhe dizia respeito?

Os críticos consideram que sim. Desde The Guardian a Flavorwire, passando por Salon, Telegraph, Slate ou The Cut, os media especializados concordam que Taylor não tem culpa de beneficiar dos privilégios de uma típica americana loira e branca; mas tem culpa de, aos 25 anos, não ter maturidade para, de acordo com o The Guardian, imaginar um debate maior do que o seu próprio ego.

Isto porque, depois de Nicki esclarecer que o comentário não lhe era dirigido, Swift respondeu: “Se eu ganhar, por favor, sobe comigo!! Estás convidada para qualquer palco que eu pise”. Aparentemente, na cabeça de Taylor esta intervenção fez sentido. Na óptica da Internet não. Não bastava criar um mal-entendido com base no seu egocentrismo: na sua tentativa de colocar um penso sobre a ferida, Swift piorou as coisas, optando por um discurso condescendente que mais não fez do que provar, com maior consistência, que Minaj estava correcta na sua primeira observação. Como pode ler-se no site brasileiro Lugar de Mulher: “Se uma mulher negra está criticando um sistema que exclui mulheres que não sejam brancas e magras, não é esse o momento para uma mulher branca e magra tentar se inserir na conversa (…) É o momento para a mulher branca e magra calar a boquinha e ouvir o que as outras mulheres têm a dizer”.

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Ainda segundo o The Guardian, a resposta de Taylor Swift, a par da cobertura por parte de alguns media, levou a que Nicki fosse estereotipada como a mulher negra chateada, enquanto Swift saía da história como a heroína feminista.

E eis que se coloca outra questão: o feminismo não é para aqui chamado. E, mesmo que fosse, ser feminista não significa concordar com tudo o que uma mulher diz. Significa igualdade de direitos e tratamento entre homens e mulheres – e isso implica criticar juízos mal fundamentados, independentemente do género do autor desses juízos.

O que é para aqui chamado, aquilo que Nicki queria que fosse realmente discutido, é o racismo.

RETRATO DE UMA AMÉRICA FRACTURADA

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O sonho americano é uma visão ao alcance de poucos. Sobretudo quando se é mulher e negra. Segundo o site Refinery29, um estudo divulgado em Julho pela American Association of University Women, por ocasião do Black Women’s Equal Pay Day – decorrido a 28 de Julho – revela que, por cada dólar ganho por um americano branco, uma afro-americana aufere apenas 64 cêntimos – o valor sobe para 78 cêntimos no caso de uma mulher branca. O mesmo estudo conclui que as afro-americanas compõem apenas 1% dos cargos mais bem pagos na área da engenharia – 3% no caso da área informática.

Não admira, portanto que, o mesmo site, citando um inquérito conduzido pela parceria New York Times/CBS News, afirme que cerca de 80% de brancos e negros acreditam que as relações raciais nos EUA estão iguais ou piores.

De facto, 2015 tem sido um ano marcado pelas convulsões sociais na América. O abuso da força por parte das forças policiais motiva constantemente manchetes escandalosas – como o caso de Freddy Gray, jovem afro-americano de 25 anos, que terá sido espancado até à morte por seis agentes da polícia; ou de Sandra Bland, que apareceu enforcada na sua cela, no Texas – a polícia assegura que se tratou de suicídio mas a família e milhares de pessoas por toda a Internet (incluindo Kim Kardashian, que usou o Twitter para expressar a sua indignação) não estão convencidas.

Os EUA foram ainda sacudidos por aquele que é considerado um dos maiores crimes de ódio dos últimos anos naquele país – em Junho, Dylann Roof entrou numa igreja na Carolina do Sul, assassinando nove afro-americanos.

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E se o racismo se manifesta de forma mais expressiva na convivência quotidiana, há quem considere existir também racismo na forma como é encarada a sexualidade das afro-americanas. Citado no site Mic, Mychal Denzel escreveu para o site Feministing: “Quando as mulheres negras reclamam o seu sentido de sexualidade e esta não parece ser controlada pelo olhar masculino heterossexual, o mundo fica descontrolado (…) É um pensamento assustador num mundo em que os corpos das mulheres negras se destinam ao nosso consumo, mas apenas nos termos que toda a gente que não seja negra ditar”.

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No caso de Minaj, é ela quem faz as regras. É verdade que os seus atributos físicos são exibidos aberta e confiantemente para deleite dos observadores. No entanto, é a artista que detém o controlo sobre quem usufrui do seu corpo – como é visível no vídeo de “Anaconda”: a dada altura da lap dance que executa para Drake, o rapper tenta apalpá-la mas a cantora afasta-lhe a mão de imediato.

O PAPEL DA MTV

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Depois de analisarmos o comportamento de Taylor Swift e da sociedade americana, fica a faltar uma variável: então e a MTV? Os números dos VMAs não são animadores para as artistas afro-americanas – desde 2010, contam-se apenas duas nomeadas para Video of the Year, num total de vinte e sete nomes. Será que os números reflectem proporcionalmente o rácio de artistas negras na indústria? Será que os vídeos dessas artistas nunca são suficientemente bons? Toda a gente sabe que a qualidade não é exactamente o critério número um de uma cerimónia de prémios em que as comunidades de fãs votam em massa para eleger o vídeo do seu artista favorito. No entanto, se Ed Sheeran pode ser nomeado para Vídeo do Ano por se limitar a dançar com uma mulher numa sala luxuosa – ao som de uma balada previsível e pouco arriscada – porque não pode Minaj? Como sublinha o site Slate, se “Anaconda” foi um fenómeno cultural, e se à MTV cabe o papel de sentir o pulso à cultura Pop, faria sentido que estivesse na lista de nomeados.

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No meio de toda a polémica, quem parece ter uma opinião muito própria sobre o tema é o sempre interventivo Deadmau5. O produtor e DJ foi ao Twitter dizer algo como: “Grande coisa, não ganhaste um prémio. Quanto trabalho é que investiste no vídeo, além de apareceres nele?”. O argumento do canadiano faz sentido mas, a aplicar-se a Minaj, aplicar-se-ia a qualquer artista nomeado – além de que não é esse o assunto em apreço. E isto são os VMAs. É preciso não elevar muito a fasquia.

BLANK PAGE

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No final, as coisas resolveram-se. Alguém na populosa máquina de marketing de Taylor Swift a deve ter elucidado, pois a artista rematou na sua conta no Twitter: “Pensei que estava a ser acusada. Não percebi o contexto, entendi mal e depois falei erradamente. Desculpa, Nicki”. A rapper aceitou as desculpas e tudo está de novo bem no mundo da Pop.

LOS ANGELES, CA - FEBRUARY 12:  Taylor Swift and Nicki Minaj attend The 54th Annual GRAMMY Awards at Staples Center on February 12, 2012 in Los Angeles, California.  (Photo by Kevin Mazur/WireImage)

Resolvida a polémica, uma pergunta continua a assombrar-me: os media estariam a falar tão incisivamente de racismo na cultura, não tivesse Swift intervindo? As discussões que entretanto surgiram por todo o lado acerca de sexualidade, racismo e apropriação cultural teriam tido lugar se a namoradinha da América tivesse ficado calada? E se, ao inadvertidamente reforçar que o racismo existe, Taylor Swift contribuiu para lançar uma discussão à escala global – uma discussão que nunca assumiria proporções gigantescas caso o seu nome não fosse envolvido? Poder-se-ia contra-argumentar, dizendo algo como “Bem, se Swift tivesse ficado calada, isto nem sequer seria um problema.” Mas não é esse exactamente o problema: o facto de o racismo não ser encarado como um problema? O facto de não falarmos sobre ele? Será que, inconscientemente, muitas pessoas não ficaram chateadas com Swift por esta as ter tirado da sua zona de conforto, obrigando-as a pensar – ou pelo menos a ler – acerca de um tema que tantas vezes preferem ignorar? Em suma: será que Taylor Swift foi o mal que veio por bem, obrigando-nos de novo a tirar o racismo dos livros de História e a trazê-lo aonde ele pertence: às conversas de todos os dias?

Talvez estejamos a dar demasiado crédito a uma estrela Pop. Ou talvez prefiramos pensar que sim, pois assim é mais fácil fechar o livro e passar para a próxima “Blank Page”.

Por Margarida Cunha, in RTRO #32, que pode ser lida na íntegra aqui.

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