Ser Mulher em Hollywood – Um filme escrito, realizado e protagonizado por homens

68th Annual Cannes Film Festival - 'Mad Max: Fury Road' - Premiere Featuring: Sean Penn, Charlize Theron Where: London, United Kingdom When: 14 May 2015 Credit: WENN.com

Sabiam que, em Junho, o casal Charlize Theron e Sean Penn deixou de o ser? Caso não saibam de quem se trata, a plataforma E! News informa: Penn tem 52 anos e é vencedor de um Óscar; Theron tem 39 e… é uma beldade sul-africana. Mas, perguntam vocês, a actriz não venceu também um Óscar (além de outros prémios)? Não tem um currículo de filmes impressionante, acumulando os cargos de produtora e Embaixadora da ONU? Então por que é que Sean Penn é tratado pelo E! News como um actor e Charlize Theron como um objecto decorativo?

Bem-vindos a Hollywood.

UMA QUESTÃO DE IDADE

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Recentemente foi divulgada a identidade da próxima Bond girl: Monica Bellucci. Se ver Bellucci no ecrã é sempre uma boa notícia em si mesma, o significado da escolha transcende os limites da tela: pela primeira vez em toda a saga 007, o espião britânico será emparelhado com uma mulher mais velha – Daniel Craig, que interpreta o papel de James Bond, tem 47 anos; Monica Bellucci tem 50.

Embora pareça uma notícia completamente trivial – afinal, a diferença de idades é mínima e, além disso, quantos homens não preferem o carisma e a maturidade de uma mulher mais velha? – a verdade é que contraria a tendência esmagadora disseminada pelos filmes de Hollywood, que aposta em pares em que o homem é muito mais velho do que a mulher. Algo a que Bellucci não é alheia: quando contactada pelo realizador Sam Mendes para fazer parte de Spectre, a actriz perguntou, em tom de brincadeira, “Precisam que substitua Judi Dench?”.

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Embora a falecida intérprete Aaliyah tenha cantado “Age ain’t nothing but a number”, para muitas actrizes os números são obstáculos difíceis de contornar. Que o diga Maggie Gyllenhaal: com 37 anos e provas mais do que dadas no mundo da representação, a actriz confessou ao site The Wrap que lhe disseram ser muito velha para fazer par amoroso com um actor de 55 anos.

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É verdade que a nossa cultura tem um velho fascínio pela juventude mas Hollywood sofre de uma estirpe específica: a obsessão por mulheres jovens. Não se trata apenas de uma vaga impressão que paira no ar depois de irmos ao cinema; o site Vulture compilou dados e criou gráficos para ilustrar a dimensão do problema. Analisando números respeitantes às carreiras de Emma Stone, Scarlett Johansson e Jennifer Lawrence, a plataforma concluiu que as actrizes contracenam com protagonistas muito mais velhos, quase sempre de meia-idade. Poder-se-ia argumentar que a ficção imita a realidade mas a verdade é que, citando o relatório americano Census 2013, o Vulture revela que, na maioria dos casamentos heterossexuais (60%), a diferença de idades compreende 2 a 3 anos. Discrepâncias significativas, na ordem dos 15 (1,6%) e 20 (1%) anos, são muito menos comuns – contrariando os retratos amorosos que Hollywood nos quer vender.

Inversamente, o Vulture analisou os pares amorosos das maiores estrelas masculinas de Hollywood. Conclusão? Os homens envelhecem mas os seus pares não. Denzel Washington tem quase 60 anos mas a idade média das suas parceiras situa-se nos 35. Já Johnny Depp costuma ser emparelhado com mulheres de idade igual ou inferior a 25 anos. Das dez estrelas analisadas, apenas Tom Hanks parece envelhecer juntamente com as co-protagonistas.

UMA QUESTÃO DE PROTAGONISMO

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Qual foi o último filme, protagonizado por uma mulher, que viram? Os mais de 3 segundos que vos demorou a pensar numa resposta são sintomáticos do estado das coisas em Hollywood. Uma vez mais, a frieza dos números impõe-se: segundo o site Refinery29, em 2014, apenas 12% dos 100 filmes mais rentáveis tinham mulheres como protagonistas. O número aumenta para 29% no caso de personagens importantes. O site cita Melissa Silverstein, criadora da fundação Women and Hollywood, que afirma que, no ano transacto, nenhum filme nomeado na categoria de Melhor Filme tinha uma protagonista feminina. Silverstein revela que os filmes devem reflectir a cultura – e que o que o reflexo que temos recebido é o de que os homens brancos são mais importantes. (Pelo menos foi essa a impressão que ficou comigo depois de ter visto o nome de Ben Affleck surgir antes do de Rosamund Pike nos créditos de Gone Girl – ainda que toda a história seja meticulosamente construída pela sua Amy.)

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É difícil para as mulheres chegarem às salas de cinema, mesmo depois de terem vendido milhões de exemplares de banda desenhada. Que o diga a Captain Marvel, a primeira super-heroína a ter direito a um filme… depois de 19 filmes protagonizados pelos seus colegas. Segundo o site Cracked, ao ritmo de uma protagonista a cada dez anos, a Marvel há-de equilibrar as coisas no próximo século.

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E o que dizer da saga Avengers, que praticamente excluiu a Black Widow (interpretada por Scarlett Johansson) do seu merchandising? Um problema sentido até pelo seu colega Mark Ruffalo (que dá vida a Hulk), tendo levado o actor a pedir, no Twitter, mais merchandise da personagem para as suas filhas e sobrinhas.

UMA QUESTÃO DE NÚMEROS

Se à frente da câmara as coisas não parecem promissoras, atrás não estão melhores. É difícil singrar como realizadora em Hollywood. Retomando os dados divulgados pelo Refinery29 relativos a 2014, apenas 6,8% (ou seja, 17) dos 250 filmes mais rentáveis foram conduzidos por mulheres. Já as conclusões do estudo “Exploring the Careers of Female Directors”, a cargo da Female Filmmakers Initiative, indicam que, desde 2002, das 1 300 longas-metragens mais lucrativas, a proporção de filmes realizados por mulheres e por homens é de 1 para 23.

Os orçamentos disponíveis para a realização de filmes também revelam discrepâncias entre géneros. A já citada Melissa Silverstein, da fundação Women and Hollywood, afirma, com base na sua pesquisa, estar convencida de que nenhuma mulher alguma vez dirigiu um filme com um orçamento acima dos 100 milhões de dólares – para efeitos comparativos, por exemplo, The Dark Knight tinha um orçamento de 185 milhões, Iron Man, de 140 milhões e The Amazing Spider-Man, de 230 milhões.

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As disparidades subsistem quando o assunto é salários. Na sequência do ataque de hackers à Sony, no final de 2014, Hollywood e o mundo ficaram a saber que mesmo estrelas premiadas como Jennifer Lawrence auferiam valores inferiores aos dos seus co-protagonistas. Dados que Charlize Theron utilizou a seu favor aquando da discussão da folha salarial para o filme The Huntsman – depois de se saber que a actriz iria receber menos pelo seu papel do que o co-protagonista, Chris Hemsworth, Theron renegociou um aumento de 10 milhões de dólares.

UMA QUESTÃO DE IMAGEM

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Em Hollywood, a imagem é essencial. Mas quando se é mulher na indústria dos sonhos, ter uma boa imagem não basta: é preciso ser sexualmente atraente. Rose McGowan, actriz de filmes como Scream e Planet Terror, atestou isso mesmo quando divulgou no Twitter as exigências de um casting a que ia concorrer: deveria vestir-se de preto ou em tons escuros, com um top justo que revelasse o decote (encorajando-se o uso de um soutien push-up) e leggings ou jeans justos. Poderíamos contra-argumentar, dizendo que talvez a ideia fosse criar uma dinâmica entre duas personagens sensuais, mas não: o co-protagonista era Adam Sandler. (O agente de McGowan deixou de a representar depois deste episódio.)

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Sabe-se que as grandes estrelas masculinas de Hollywood têm muitas vezes o direito contratual de escolher as actrizes com quem vão trabalhar num determinado filme. Segundo Salma Hayek, eles não gostam quando uma personagem feminina é forte.

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Mas a testosterona que flui em Hollywood não diz respeito apenas a actores e realizadores; os media de entretenimento asseguram-se sempre de escrutinar o visual das mulheres ao mais ínfimo pormenor. Que o diga Cate Blanchett, que, por ocasião dos Screen Actors Guild Awards de 2014, ao ser filmada de cima abaixo por um cameraman do canal E!, questionou, apontando para a câmara: “Também fazem isso aos homens?”. O mesmo canal achou que era boa ideia criar uma manicam – uma pequena câmara onde as mulheres revelam a sua manicure. Várias estrelas recusaram-se a tal exposição mas a que teve a melhor reacção foi, sem dúvida, Elisabeth Moss – actriz de Mad Men – que deixou que a câmara captasse o seu dedo do meio em toda a sua glória.

UMA QUESTÃO DE REPRESENTAÇÃO

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Atrás das câmaras, o sexismo mantêm-se: não só o número de realizadoras é reduzido como o tratamento que lhes é dado revela muitas vezes um paternalismo condescendente. Segundo a organização ACLU (American Civil Liberties Union), que recolheu testemunhos de dezenas de realizadoras, muitos executivos afirmam que um determinado programa ou série não é “woman friendly” – havendo mesmo produtores que dizem aos agentes para não enviarem mulheres ou, a cereja no topo do bolo: “Já contratámos uma mulher nesta temporada”. Alguns minutos passados a ler testemunhos no tumblr Shit People Say To Women Directors (& Other Women In Film) também poderão revelar-se esclarecedores.

A discriminação do género em Hollywood é um polvo com vários tentáculos: não se prende apenas com a idade, o salário ou a imagem das mulheres; estende-se ao tipo de cobertura mediática que obtêm, passando pelas perguntas que lhe são colocadas.

JIMMY KIMMEL LIVE - Emmy Award-nominated "Jimmy Kimmel Live" airs every weeknight (11:35 p.m. - 12:41 a.m., ET),  packed with hilarious comedy bits and features a diverse lineup of guests including celebrities, athletes, musicians, comedians and humorous human interest subjects. The guests for TUESDAY, OCTOBER 29 included actress Jennifer Garner ("Dallas Buyers Club"),  actor David Arquette and musical guest Arcade Fire from the Capital Records Building.  (Photo by Randy Holmes/ABC via Getty Images) JENNIFER GARNER

Na cerimónia de prémios Elle Women of Hollywood do ano passado – quando ainda era casada com Ben Affleck – Jennifer Garner confessou, em tom de desabafo, que estava farta que lhe perguntassem como conseguia equilibrar a carreira com a vida pessoal, quando Affleck nunca tinha sido questionado sobre esse assunto. Um dos muitos episódios que motivaram a iniciativa #askhermore, popularizada por Reese Witherspoon, no sentido de questionarem as actrizes acerca das suas participações nos filmes e não apenas acerca do seu vestido ou vida pessoal.

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Como pode uma tendência com séculos de existência ser revertida? Com paciência e, segundo Salma Hayek, dinheiro. “A única coisa que podemos fazer é mostrar-lhes que somos uma força económica. Nada mais os afectará. Quando virem o dinheiro, as coisas serão instantaneamente diferentes. Mostrem-lhes o dinheiro”.

Sim, mostrem-lhes o dinheiro. A mim, apenas precisam de mostrar manchetes como esta: “Oscar-Winner Charlize Theron Broke Up With Her Boyfriend”.

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