As aparências Iludem – Análise do Livro “Pequenas Grandes Mentiras”

“Nunca lhe passara pela cabeça que mandar o filho para a escola seria

como se ela própria voltasse para a escola!”

peqgramentiras

Chega a Portugal mais um livro da autora sensação da Austrália, Liane Moriarty, “Pequenas grandes mentiras”. A australiana, com seis livros publicados, tornou-se recentemente num bestseller internacional (particularmente em Inglaterra e nos Estados Unidos) com “O segredo do meu marido”. Segundo a própria autora, o seu último livro, “Pequenas grandes mentiras”, retrata um tema muito em voga nos dias de hoje, o bullying, quer aquele que é perpetrado por crianças na escola, quer entre mulheres adultas, ou, na sua vertente mais cruel, a da violência doméstica e sexual. Embora permeado com algum humor, já característico de obras anteriores da australiana, as cenas mais fortes do livro são descritas de uma forma fria e analítica.

A acção passa-se numa vila costeira fictícia e centra-se na vida de pais, mães e filhos que frequentam a escola pública de Pirriwee. O trama principal assenta sobre uma festa de pais, (que alia uma mascarada a uma espécie de quiz de cultura geral), organizada para angariar fundos para a escola e que termina de uma forma imprevisível: com uma morte.

A história, inicialmente, parece demorar a avançar, misturando o passado e o presente com inúmeras personagens que surgem sem qualquer apresentação prévia mas que, ao longo do livro, passamos a conhecer melhor e a atribuir-lhes uma maior importância. Basta ler a sinopse para saber que haverá um crime… mas quem morreu? Quem matou? E mais importante: porquê? Sabemos, apenas, que a noite da festa responderá a todas essas dúvidas. E enquanto o mistério perdura ao longo da história, vamos conhecendo a fundo as particularidades de cada protagonista.

Jane, jovem mãe solteira de Ziggy, de 5 anos, acaba de se mudar para a Península de Pirriweee para começar uma nova vida. Faz, de imediato, amizade com Madeline e Celeste, que se mantêm a seu lado mesmo depois de ser posta de parte pelas restantes mães da vila costeira. É uma jovem com a auto-estima comprometida devido a situações passadas, que tem tudo para feliz mas que não consegue ver todas as potencialidades e tudo o que o mundo lhe tem para oferecer. Madeline, de 40 anos, é casada com Ed, tem uma vida financeira estável e 3 filhos. Um menino viciado em desportos radicais, Abigail, filha mais velha do seu primeiro casamento com Nathan, e Chloe, de 5 anos, colega de Ziggy e Skye, a filha mais nova do ex-marido. Apesar de ser uma mulher decidida e segura de si mesma, Madeline vive ainda um pouco no passado, nunca conseguiu superar totalmente o facto de Nathan a ter abandonado e, para piorar, ser agora aparentemente um pai e esposo ideal, casado com uma mulher que a própria filha parece preferir a ela. Celeste, uma mulher bela e encantadora com uma vida perfeita: casada com Perry, extremamente rico e bonito, e com dois filhos gémeos. Tem aparentemente uma vida de sonho e é a inveja de todas as outras mães. O custo desta vida é, no entanto, alto como percebemos ao longo da narrativa, em que a vemos sempre a agir pensando primeiro nos julgamentos da sociedade.

A narrativa é feita na terceira pessoa, mas permite-nos aproximar de cada uma delas e entender as suas particularidades e características, mesmo as mais bem escondidas. Embarcamos numa viagem de (re)descoberta com estas três mulheres, que acabam por ser mais comuns do que esperado, conseguimos identificá-las facilmente com alguém que conhecemos: as nossas mães, irmãs ou amigas. A amizade de Jane, Madeline e Celeste é posta à prova logo nos primeiros capítulos, quando Ziggy é acusado de cometer bullying com uma das crianças da escola causando um enorme alvoroço entre os pais, que pretendem uma resposta firme e exemplar por parte da escola. No entanto, as coisas não parecem ser como realmente são. É este episódio que desata uma série de outros em que Jane e Ziggy se transformam em párias, e pais e crianças são “forçadas” a escolher um lado. É, assim, que, nós, leitores, ficamos a conhecer o que cada família vivencia e guardava para si até então, tudo o que vai ser determinante para o desenlace da história.

Moriarty apresenta-nos as personagens principais da trama, alterna entre elas e estende a narrativa dando-nos pequenas pistas sobre o ponto de viragem do livro, a noite da festa de máscaras. Para chegar à tal festa a autora optou por fazer avanços e recuos no tempo: os capítulos aparecem em forma de contagem regressiva até a noite do Jogo de Perguntas e Respostas e são narrados por diferentes personagens; contudo, no final de cada capítulo, são-nos apresentadas diversas versões do que realmente aconteceu. Depoimentos (pós-tragédia) de pais, professores e detectives fundem-se, assim, à narrativa, aparecendo nos capítulos como algo relativo ao assunto nele narrado, mas também dando pistas acerca do que pode ter acontecido naquela fatídica noite.

O clímax da história foi muito bem escolhido, pois consegue misturar os dois géneros que a obra partilha: o drama e o mistério. Basta dizer que todos os capítulos sem excepção nos ajudam a conhecer as personagens a fundo e construir as nossas próprias suspeitas e, finalmente, chegar à verdadeira resposta, que apenas nos é dada nos capítulos finais. Impreterivelmente, todos os episódios que nos são narrados, todas as experiências por que passam as personagens e todas as pistas de que nos são transmitidas, giram em torno das circunstâncias da misteriosa morte que acabará por alterar o destino de pais e alunos de Pirriwee.

Moriarty expõe os defeitos daquilo que é aparentemente perfeito, ensinando-nos a não acreditar em tudo desde um princípio, mas, sim, duvidar até ao fim de palavras, acções e vidas aparentemente perfeitas. Um livro que retrata na perfeição o efeito “bola de neve” de algumas mentiras: as que contamos aos outros, e principalmente, as que contamos a nós mesmos. Não há, no entanto, mentiras que durem para sempre.

De referir, que os direitos da obra foram adquiridos pelas produtoras de Nicole Kidman e Reese Witherspoon, que serão as protagonistas da adaptação cinematográfica de “Pequenas Grandes Mentiras”: Já sabem, antes de ver o filme, leiam o livro.

Título: Pequenas Grandes Mentiras

Título original: Big Little Lies

Autor: Liane Moriarty

Tradutor: Raquel Dura Lopes

Editora: Edições Asa

Edição: Maio de 2015

Páginas: 480

Género: Romance, Mistério

 

Por Ana Cristina Silva, in RTRO #32, que pode ser lida na íntegra aqui.

rtro #32 capa

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s