Madonna apresenta o projecto artístico “Art For Freedom” e escreve uma carta aberta na Harper’s Bazaar

Liberdade de expressão é um tema que Madonna conhece bem. Pautando toda a sua carreira pela objecção às normas e não se conformando com estereótipos e códigos rígidos, a cantora sabe bem o que é ser olhada de lado e criticada pela sua ousadia e visão.

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Como tal, a 24 de Setembro, divulgou o Secret Project Revolution, um filme de 17 minutos co-dirigido pela própria e Steven Klein. Trata-se de uma experimentação audiovisual na qual Madonna é presa e em que cenas de tortura são entre-cortadas por cenas de arte performativa. Um contraste que é revelado enquanto Madonna narra o objectivo do projecto: lançar a iniciativa online Art For Freedom, um apelo à acção que visa fomentar a liberdade de expressão e a tolerância pela diferença, independentemente da sua natureza. Como complementa Steven Klein, o filme opera a vários níveis, examinando as nossas “várias prisões”. Uma dessas prisões poderá referir-se ao momento do filme em que Madonna afirma que a sua mensagem de liberdade é descredibilizada pelo facto de a cantora ser loira.

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O evento de apresentação do filme decorreu em Nova Iorque, numa festa repleta de celebridades de todos os quadrantes, de Lindsay Lohan a Calvin Klein, passando por Perez Hilton e Sean Penn, ex-marido da artista.

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Pode ler-se no site oficial de Madonna: “O meu objectivo é dar o exemplo do meu compromisso para inspirar a mudança através da expressão artística. Espero que o meu filme e outras submissões ao Art For Freedom funcionem como um apelo e dêem às pessoas um lugar para verbalizarem a sua expressão criativa, lutando contra a opressão, a intolerância e a complacência.”

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O público e outros artistas são assim encorajados a estimular o discurso livre, através de trabalhos de toda a natureza (vídeo, música, poesia, fotografia…) em que expressem a sua visão pessoal de liberdade e revolução.

O vídeo surgiu acompanhado de uma longa entrevista a um editor da revista VICE, Eddy Moretti, em que Madonna afirma querer que as pessoas defendam os seus direitos, tenham voz e contem as suas histórias. Considerando-se uma lutadora pela liberdade, afirma ainda estar disposta a ir até onde tiver de ir. Narra ainda episódios relacionados com a sua tournée e manifestações de intolerância que ocorreram nesse período.

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Numa análise à sociedade actual, a artista refere que a nossa civilização julga estar a avançar, quando de facto está a retroceder, tornando-se mais intolerante. E remata que o nosso nível de consciência global não está a crescer. E exemplifica, afirmando que somos expostos a tantas imagens que ficamos insensíveis a elas. “Os meus filhos não sabem distinguir um noticiário de um filme de acção”, revela.

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E se julgavam que a sessão ousada para a Harper’s Bazaar de Novembro era o regresso à Madonna puramente sensual, desenganem-se. O ensaio fotográfico é acompanhado de uma carta aberta, muito pessoal e biográfica, assinada pela Material Girl.

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A publicação disponibilizou uma boa parte dela no seu site. Compilámos e traduzimos as suas melhores citações aqui:

Como jogar (metaforicamente) ao Verdade ou Consequência: “É preciso jogar com pessoas espertas, senão dás por ti a dar linguados a toda a gente ou a fazer br*ches a garrafas de [água] Evian”.

Acerca da sua maneira de ser ousada: “Se não posso ser ousada no meu trabalho ou forma de viver, não vejo o objectivo de estar neste mundo”.

“A ideia de ser ousada tornou-se na norma para mim. Colocar questões, desafiar as ideias das pessoas e os seus sistemas de crenças e defender os que não têm voz tornou-se parte do meu dia-a-dia.”

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Acerca da rebeldia e da impopularidade… :“Descobri rapidamente que seres rebelde e não te conformares não faz de ti lá muito popular. Na verdade, faz o oposto. És visto como uma personagem suspeita. Um problemático. Alguém perigoso.”

… e em como isso é benéfico: “Quando não és popular e não tens vida social, dá-te tempo para te focares no teu futuro.”

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Acerca da sua relação com a religião: “Sou uma grande crente no comportamento ritualista, desde que não magoe ninguém. Mas não sou grande fã de regras. E no entanto não podemos viver sem ordem. Ordem é o que acontece quando palavras e acções aproximam as pessoas, não quando as separam.”

Acerca do seu gosto pela provocação: “Sim, gosto de provocar, está no meu ADN. Mas 9 vezes em cada 10, há um motivo para tal”.

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Acerca de idealismo: “Se não estás disposto a lutar pelo que acreditas, nem sequer entres no ringue”.

Sempre um passo à frente, Madonna já não se limita a compor canções acerca da liberdade de expressão. Através da criação de um movimento que transcende a música para tocar todas as formas de comunicação, a artista lança as sementes de uma luta que, com a sua voz e as dos que se lhe juntarem, pode bem transformar-se numa revolução.

O que acharam do projecto Art For Freedom?

E da carta aberta de Madonna à Harper’s Bazaar?

Por Margarida Cunha

Os 10 Beijos mais famosos da História

Neste Dia Internacional do Beijo, a RTRO elege dez gestos, reais e fictícios, que deixaram marca de batom no imaginário colectivo.

Sigam-nos nesta viagem e descubram (ou recordem) algumas curiosidades!

Alexandra Thomas e Scott Jones

VANCOUVER, BC - JUNE 15: Riot police walk in the street as a couple kiss on June 15, 2011 in Vancouver, Canada. Vancouver broke out in riots after their hockey team the Vancouver Canucks lost in Game Seven of the Stanley Cup Finals. (Photo by Rich Lam/Getty Images)

Em 2011, o casal viu-se no centro de um mediatismo improvável, quando foi fotografado pelo repórter canadiano Richard Lam. Apanhada num motim que se formou em Vancouver, no Canadá – na sequência da derrota da equipa de hóquei Vancouver Canucks nas finais da Stanley Cup – Alexandra foi derrubada pela multidão, segundo uma testemunha ocular citada pelo The Guardian. Scott ter-se-á então debruçado sobre a namorada para a confortar, beijando-a. O que fica para a História é uma imagem que correu o mundo: um gesto de amor no meio do caos.

Spider-Man e Mary Jane

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Independentemente da opinião da crítica em relação ao desempenho dos protagonistas, o beijo que, em 2002, uniu Tobey Maguire a Kirsten Dunst tornou-se num dos mais icónicos da história do cinema.

No entanto, o romantismo de um beijo à chuva, e de cabeça para baixo, não deixou boas recordações a Maguire. Na altura, o protagonista queixou-se que a chuva que lhe entrava e saía do nariz o impedia de respirar, resultando numa espécie de respiração boca-a-boca com Dunst.

John Lennon e Yoko Ono

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Aquele que foi um dos mais mediáticos casais do século XX protagonizou uma não menos mediática capa para a revista Rolling Stone. A sessão fotográfica – produzida por Annie Liebovitz para a edição de 22 de Janeiro de 1981 – foi a última do proeminente elemento dos Beatles, tendo sido captada apenas horas antes de este ter sido assassinado.

Príncipe William e a Duquesa Kate Middleton

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O mundo parou para, a 29 de Abril de 2011, testemunhar o casamento do herdeiro da Coroa Britânica. O bem-amado William, que parecia nunca mais assentar, selava assim o compromisso que o unia a Catherine Middleton – cuja simpatia e requinte lhe valeram várias comparações àquela que seria a sua sogra, a falecida Princesa Diana.

Embora tenha demorado dois anos para o pequeno George nascer – um fenómeno que tem tanto de real como de lucrativo – o que ficou para a posteridade foi o aguardado e recatado beijo que William e Kate trocaram na varanda do palácio de Buckingham.

Britney e Madonna

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Nos tempos em que os prémios MTV ainda faziam manchetes, a princesa e a rainha da Pop trocaram um beijo – Christina Aguilera também foi beijada por Madonna mas o gesto não obteve a mesma notoriedade.

Tudo aconteceu em 2003,  por ocasião de uma das mais memoráveis performances da história das cerimónias MTV. Britney, Christina e Madonna uniram-se para interpretar um medley de “Like a Virgin” e “Hollywood”. Mais tarde, ao comentar o sucedido, Madonna viria a afirmar que beijar Britney assemelhava-se a beijar um cinzeiro.

A Dama e o Vagabundo

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O clássico filme de animação da Disney de 1955 povoou o imaginário de milhões de crianças e adultos. Para além de transformar uma simples refeição de esparguete com almôndegas num acto romântico, a produtora transpôs para o universo canino o tema (sempre fracturante) das diferenças entre estratos sociais.

Rose e Jack

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Titanic não precisava de um beijo para ficar famoso. Com um orçamento de 200 milhões de dólares, Céline Dion a dar voz ao tema “My heart will go on” e um jovem DiCaprio a provocar suspiros entre as jovens, a super-produção conduzida por James Cameron tinha tudo para arrebatar o público. E conseguiu: quebrou corações e recordes por todo o mundo, traduzindo-se num lucro de mais de 2 biliões de dólares.

Por isso, o beijo que as personagens de Kate Winslet e Leonardo DiCaprio trocam na proa do navio é apenas a cereja no topo do bolo. Mas é a cereja que viria a imortalizar o filme e que ainda hoje permanece nas nossas memórias.

 O Beijo (Gustav Klimt)

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A obra, pintada entre 1907 e 1908, é a mais icónica do pintor austríaco e dizem os especialistas que pertence ao seu período dourado. Curiosamente, surgiu numa altura conturbada para Klimt. Depois de os seus Quadros das Faculdades (pintados para a Universidade de Viena) terem tido uma recepção negativa por parte da crítica – pelo seu teor alegadamente erótico e perverso – o artista vê o seu Beijo ser comprado (ainda antes de ter sido concluído) pelo Museu Belvedere, pela quantia de 25 000 coroas (cerca de 213 000€). Até então, na Áustria, o preço mais elevado de um quadro tinha sido de 500 coroas.

Quanto vale hoje O Beijo? A obra não se encontra à venda mas, para efeitos comparativos, refira-se que Adele Bloch-Bauer I – também da autoria de Klimt mas muito menos célebre – foi vendido em 2006 por 120 milhões de euros (o quadro mais caro até àquela data).

O quadro, que muitos apontam como sendo o auto-retrato de Klimt e da companheira Emilie Flöge, além de icónico, impõe-se pelas suas dimensões: são 180 cm por 180 cm – a célebre Mona Lisa apresenta uns humildes 77 cm x 53 cm.

Scarlett e Rhett

GONE WITH THE WIND, Clark Gable, Vivien Leigh, 1939.

Não importa realmente que Clark Gable não tenha gostado da sua prestação em E tudo o vento levou, por considerar o filme uma película para mulheres. Nem importa que o actor tenha auferido 120 000 dólares por 71 dias de trabalho, quando Vivien Leigh trabalhou durante 125 dias e ganhou apenas 25 000.

O que o espectador viu e reteve foi o beijo arrebatado que as personagens Scarlett e Rhett trocam, que imortalizou o filme de 1939.

George Mendonça e Greta Friedman

A jubilant Amer. sailor clutching a pretty white-uniformed nurse in a back-bending, passionate kiss as he vents his joy while thousands jam the Times Square area to celebrate the long awaited victory over Japan.

Aquele que é reconhecido universalmente como o beijo mais famoso de sempre tem como protagonistas duas figuras da vida real: George, marinheiro, e Greta, enfermeira, eternizaram a fotografia “V-J Day [Victory over Japan] in Times Square”, captada por Alfred Eisenstaedt para a revista Life.

Contudo, George e Greta não se conheciam sequer. O marinheiro, na altura dispensado, teria ouvido que a guerra tinha acabado e decidiu celebrar, saindo à rua. No meio da confusão em Times Square, julgou que Greta estava ao serviço das tropas e, um pouco embriagado, resolveu beijá-la.

Talvez esta explicação retire alguma magia à foto mas a verdade é que esta continua a ser a que mais vezes aparece quando se pesquisam as palavras “famous kiss”.

Fontes: mental_floss, Rolling Stone, The Guardian, The New York Times, Wikipedia

Especial 5º Aniversário – 5 Momentos Marcantes na História da RTRO (Escolhas de uma Editora)

Passaram 5 anos desde que decorreu, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, a reunião que viria a lançar as bases daquela que é hoje a RTRO. Parece pouco tempo para uma revista mas é de facto muito para um projecto que nasceu académico e que se foi descobrindo aos poucos.

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Como um verdadeiro ícone, na bagagem a RTRO já leva tantas mudanças de visual como Madonna e tantas entradas e saídas de gente como uma equipa de futebol. Presente desde o número 1, tive (e continuo a ter) o privilégio de ver esta menina a transformar-se numa mulher. Um dia, ela há-de pedir-me para lhe comprar o vestido para o baile de finalistas.

Até lá, e na edição que comemora o 5º aniversário da RTRO, partilho convosco os 5 momentos que mais me marcaram desde que cá cheguei.

 

A “rtrô” sai do armário

A 15 de Dezembro de 2009 recebo um email do GACCUM (Grupo de Alunos de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho). Estão à procura de colaboradores que gostem de escrever e que queiram fazê-lo para uma publicação mensal de Moda. Uma ideia que me pareceu interessante mas ainda um pouco vaga. Descubro que afinal a iniciativa partiu de um aluno brasileiro de Erasmus, Gustavo Stevanato, que viria a apresentar formalmente o projecto 10 dias depois. O conceito? Uma revista de nome “rtrô”, orientada pelas Doutoras Gabriela Gama e Maria Zara Coelho, numa abordagem que propõe, segundo o próprio Gustavo, uma “visão séria e académica da moda, ‘mais conteúdo, menos oba-oba e babado fashion’.

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E eis que, a 30 de Janeiro, é divulgado no blog o primeiro número da RTRO. Com apenas 5 páginas, e sob a assinatura “O clima é vintage, o visual é retro”, a “rtrô” surge salpicada de molho de tomate, protagonizada pelo ensaio provocador de Stevanato, “Sobre coisas belas e sujas”. Um desafio ao olhar comum, ao gosto massivo e às definições pré-enraizadas sem digestão. O meu percurso na revista começava, no papel de editora/ revisora. Com o entusiasmo característico de um projecto experimental, a “rtrô” saiu do laboratório.

O meu primeiro artigo

Em Março de 2010, e já sob a orientação da Catarina Oliveira, é produzida a primeira “rtro” – a saída do Gustavo da liderança significou o aportuguesamento da palavra, caindo o acento circunflexo. Dedicada à Música, a edição de Abril vê nascer o meu primeiro artigo: “Music & Fashion”, um ensaio acerca da relação de reciprocidade entre ambas as áreas. Na capa encontrava-se a nossa colega e colaboradora, Mariana Sousa Santos, inspirada por elementos rock.

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O meu entusiasmo pela música – particularmente pela electrónica, que estava a descobrir – viria a inspirar uma rubrica para as edições seguintes – “Artista do Mês” – em que apresentei nomes emergentes em dose dupla: Justice, The Bloody Beetroots e Modeselektor encheram a RTRO de batidas efervescentes e irreverência.

Hoje, a Catarina e a Mariana procuram outros palcos: a primeira em Inglaterra; a segunda em Itália.

 

O meu primeiro número como editora

A 1 de Setembro de 2010 surge no Facebook da “rtro” um anúncio: “RTRO procura novo/a Editor/a-Chefe. REQUISITOS: * experiência na Rtro ou numa revista de moda; *aluno do curso de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho (preferencialmente +2º ano). Interessados contactem-nos para o nosso email: rtro.magazine@ymail.com. É um cargo de grande responsabilidade e requer o cumprimento de prazos restritos, mas bastante gratificante.”

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2 dias depois, enviei um email à Catarina, candidatando-me à posição. E aqui tenho ficado até hoje. A 6ª edição, a de Novembro de 2010, marca assim o início do meu percurso como editora da RTRO. Maquilhada por um lápis preto que a atravessava da capa à contra-capa, a revista surgiu com uma nova paginação, uma experimentação trabalhosa da nova paginadora, Cátia Sá.

Foi um período de transição, um Outono que significou uma verdadeira rentrée para a RTRO. No meu primeiro editorial, podia ler-se: “A nossa presença na cena mediática é curta. Mas revelámo-nos bons estudantes porque passámos em exames importantes e retirámos algumas lições. E queremos continuar a aprender.”

Estilo Manuelino

Um dos aspectos mais interessantes de frequentar a universidade é que nunca se sabe com quem poderemos cruzar-nos nem que marca poderão deixar nas nossas vidas. Um cliché que nos é vendido quando ainda frequentamos o liceu e que só se materializa quando, anos depois de termos terminado o curso, constatamos que há pessoas que continuam por cá, a fazer parte do nosso quotidiano. É assim que surge a participação do Manuel na RTRO. Meu colega de Mestrado, e formado em Audiovisual, o “Manel” ficou a conhecer a RTRO nos intervalos das aulas e prontificou-se a paginá-la enquanto, aos poucos, a formação inicial da revista se ia desfazendo.

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A sua entrada na RTRO, na edição de Abril de 2011, é considerada, por mim, um momento marcante porque representa um período de transição, ao nível da identidade visual da revista. A RTRO amadurece, solta-se da meninice e torna-se mais leve. Os textos surgem mais soltos, as imagens ganham destaque, o equilíbrio parece cada vez mais próximo.

O “estilo manuelino” é difícil de caracterizar mas fácil de identificar: basta pegarem numa qualquer edição da RTRO a partir do nº9. Verão que há pequenos traços que surgem, formas que se metamorfoseiam e elementos subtis que são introduzidos aqui e ali. São os frutos do experimentalismo. Mas a essência do estilo manuelino mantém-se. Felizmente, até hoje.

A maior edição de sempre

Com mais de 140 páginas, a RTRO de Setembro-Outubro de 2013 foi a nossa maior de sempre. Um número à altura de um autêntico “September issue” e, provavelmente, a minha edição favorita da revista. Neste número, foi conseguida uma RTRO verdadeiramente completa, com todas as rubricas que criámos aos poucos – Focus on Designers, Color Me, Smells Like…, It Girl, Blogger Chat… A essas rubricas foram acrescentados artigos pertinentes das áreas (e abordagens) mais diversas, da Moda à Arte, passando pela Beleza ou a Música. Um feito aparentemente simples para qualquer revista profissional mas que requer um esforço mais do que redobrado, quando produzido nos tempos livres por colaboradores movidos apenas pelo vapor da paixão pela escrita e pela fotografia.

O Verão e o início do Outono de 2013 foram períodos culturalmente relevantes e isso é perceptível nas páginas da revista. Ora, o que poderia ser mais compensador para uma publicação do que a capacidade de reflectir o seu tempo?

RTRO #23 - Da Arte e da Pop - O Lugar de Gaga - 1

A título pessoal, a edição #23 encontra-se igualmente revestida por um significado especial, na medida em que inclui três dos artigos mais maduros que assinei até hoje. Desde miúda que tenho um grande fascínio pelo pulsar da cultura Pop e ter a oportunidade de reflectir sobre a mesma é um privilégio que exercito ocasionalmente na RTRO. Ora, 2013 foi o ano em que Miley se reinventou, Gaga regressou e Robin Thicke (entretanto fadado ao esquecimento) pisou a(s) linha(s). Foram três momentos aparentemente normais para uma indústria que vive de excessos e regressos, mas que desencadearam debates em larga escala, que em muito ultrapassaram as fronteiras da música. Nesses meses, a Internet discutiu sobre sexualidade, emancipação feminina, autenticidade, rivalidade, vulgaridade, consentimento sexual, etc. Estes três artigos pretenderam funcionar como um eco dessas discussões, elevando um pouco a fasquia das perguntas que se levantavam. Três artigos em que as conclusões e novas perguntas se impunham à medida que teclava, desencadeando aquela euforia viciante de quem faz o que gosta. Três artigos em que consegui fundir duas das paixões que me acompanham desde que me lembro de ser gente: ouvir e escrever.

Por Margarida Cunha, in RTRO #31, que pode ser lida na íntegra aqui.

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Especial 5º Aniversário – 5 Directores que estão a mudar o Mundo Editorial

A realidade das revistas há muito que se encontra desafiada pela gravidade das tecnologias e do seu cada vez maior imediatismo. Manter uma publicação em formato físico – outrora um selo de qualidade e atestado de profissionalismo – consiste hoje em travar batalhas diárias contra as redes sociais e contra o défice de atenção colectivo.

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Torna-se premente criar, mais do que uma publicação, uma identidade. Assim, por ocasião do 5º aniversário da RTRO e sem ordem definida, eis uma selecção de cinco directores de revistas de Moda e Lifestyle que partiram na aventura de repaginar o destino da imprensa especializada.

STEFANO TONCHI

W Magazine

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O nome Stefano Tonchi pode não soar familiar mas é responsável por algumas das mais icónicas capas dos últimos anos. Tendo deixado a sua marca em publicações como Esquire, L’Uomo Vogue e fundado a T: The New York Times Style Magazine em 2004, o florentino chegou à W em 2010 – um período crítico para a publicação. Desde então, a revista tem sobressaído e arrecadado prémios graças sobretudo à Fotografia – as fotos de capa são autênticos hinos à intemporalidade, tal é o impacto das imagens.

Pouco dado a tradicionalismos – Tonchi considera que a tradição e o bom gosto são entraves à mudança – não hesitou em colocar Kim Kardashian na capa da W, muito antes de se especular sobre as capas da Vogue e da Paper. E se a publicação é conhecida pelo rol infindável de celebridades que desfilam nas suas páginas, Tonchi crê que o que distingue a W é a abordagem à Moda, que não se foca nas roupas ou nos objectos, mas no contexto que pode ser criado à volta destes. Para que saltem directamente das montras das lojas para os sonhos dos leitores.

KATE LANPHEAR

Maxim

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Sim, leram bem: Maxim, a revista masculina. Lanphear, conhecida pelo seu estilo rock e tom boy, construiu a sua carreira à volta do styling, o que se traduz num portefólio onde constam referências como Elle, T: The New York Times Style Magazine e vários desfiles de Moda. Podem, portanto, imaginar o choque que se abateu sobre o mundo editorial quando, em Setembro de 2014, Lanphear foi anunciada como a nova directora da Maxim. O que pode uma editora com um background tão cimentado em Moda trazer a uma revista que invoca uma imagética pautada por mulheres seminuas? Lanphear respondeu, numa entrevista ao site Refinery 29: “Queremos criar uma marca que celebre os homens, as suas histórias e os seus sucessos (…)”. Acrescenta ainda que se pretende veicular uma visão multidimensional da mulher, bem como construir nos leitores aspirações como o sucesso e a sofisticação.

O primeiro número sob a sua alçada – a edição de Março – denota claramente uma mudança de abordagem: há de facto uma mulher linda na capa, como é habitual, mas tudo o que pode ver-se é o rosto – as palavras “Come Closer” completam o convite. O que mudou? Kevin Martinez, publisher da revista, revelou à AdWeek: “O nosso rapaz cresceu. Tem 33 anos, está a começar a ganhar dinheiro e a olhar para a vida com outros olhos”.

JOANNA COLES

Cosmopolitan

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Se a revista Maxim pode ser olhada de lado por muitos devido ao seu teor alegada e simplisticamente sexual, a mesma reputação é atribuída à Cosmopolitan. Liderada desde 1965 até 1997 pelo espírito revolucionário de Helen Gurley Brown, aquela que é provavelmente a revista feminina mais famosa do mundo construiu o seu legado à volta de chamadas de capa focadas em sexo, feminismo e trocadilhos pouco inocentes. O ano de 2012 foi de viragem para a marca: não só assinalou a morte da sua icónica directora Helen Gurley Brown como marcou a estreia de Joanna Coles nessa função. Uma escolha precedida, nomeadamente, por quatro anos à frente da Marie Claire, presenças habituais no programa Project Runway All Stars e reportagens no jornal Daily Telegraph.

E o que conseguiu Coles desde então? Além de segurar com estabilidade as 3 milhões de leitoras da revista, conseguiu duplicar o tráfego do site, traduzindo-se em 30 milhões de acessos. Mas o maior contributo que a britânica tem trazido à Cosmopolitan é qualitativo: em cima da mesa encontram-se agora artigos de fundo acerca de política, religião e sociedade – áreas que a “velha Cosmo” já cobria mas residualmente. Uma Cosmo mais madura, destinada, nas palavras de Coles ao The Guardian, “(…) à jovem lutadora, provavelmente saída da universidade, aturdida em dívidas e empréstimos, mas com grandes aspirações e a dúvida ‘Como é que vou fazer isto?’”.

ANNA WINTOUR

Vogue

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É uma escolha óbvia mas falar sobre directores proeminentes sem mencionar Wintour seria como falar sobre a história da música Pop sem mencionar Madonna. À frente da Vogue desde 1988, a londrina de 65 anos pode ser conhecida pelo seu carácter particularmente exigente e questionavelmente elitista; mas o que ficará para a História é o patamar a que elevou a Vogue: um patamar de exigência extremamente elevado, em que luxo e autoridade se misturam para produzir, mais do que uma revista, uma marca.

Embora lhe seja atribuída a iniciativa de colocar celebridades nas capas de revistas de Moda – criando uma tendência que perdura até hoje – as negociações de Wintour com a democracia do gosto e do consumo são raras. A sua predilecção por peles assim o atesta, bem como o carácter aparentemente inatingível dos sonhos vendidos em cada edição da Vogue. Para Wintour, não se trata de alargar o gosto mas sim de refiná-lo. Como se a Vogue fosse o último reduto do luxo autêntico, depurado de expectativas, interpretações e politiquices. Livre do politicamente correcto, do socialmente expectável e do universalmente alcançável. E se tal abordagem possa ser encarada como potencialmente contraprodutiva, a verdade é que seduz os puristas, reduzidos a um nicho fiel e ávido, mas igualmente os progressistas, que vêem na Vogue um curioso caso de estudo – um pouco como a nossa colega que veio do colégio privado. Aquela que nos parece um tanto betinha e desenquadrada mas cujos passos não conseguimos deixar de seguir.

SOFIA LUCAS

Máxima

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Uma das minhas secções preferidas nas revistas é o editorial. Depois da capa, é o primeiro contacto com o leitor, a oportunidade de seduzi-lo ou perdê-lo; o momento em que a autoridade máxima da revista se dirige directamente ao seu público. Por isso, quando algum(a) director(a) consegue ir além da tarefa básica de descrever o conteúdo da revista e prender o leitor naquela única página que lhe é reservada, sabemos que o caso é sério. E os editoriais de Sofia Lucas são um caso sério de escapismo sob a forma consumada.

Os leitores da Máxima sabem que a cada edição mensal corresponde um tema, social ou culturalmente relevante. Foi essa abordagem que me levou a crer, quando me deparei com “100 Homens Sem Preconceitos”, no ano passado, tratar-se apenas do tema do mês; uma iniciativa pertinente e bem pensada mas com tempo e espaço claramente definidos: a edição de Março. É por isso com agradável surpresa que descubro que a iniciativa se manteve até hoje, materializando-se numa exposição e, brevemente, em livro. Afinal, estamos a falar de uma campanha que pretende colocar os nossos mais icónicos homens a calçar saltos altos num país pouco dado a modas e em que o feminismo ainda é uma grande pedra no sapato.

Abordar o feminismo faz, aliás, parte da agenda (por vezes forçada) de qualquer revista feminina que se preze. Portanto, quando a directora da Melhor Publicação Feminina de 2014 (segundo a Meios & Publicidade) avança na decisão de o transformar, mais do que em tema do mês, numa iniciativa à escala global, é preciso parar um pouco e prestar atenção. Porque o passo pode parecer pequeno mas o salto é alto. Porque o tema é desconfortável e provoca bolhas. Porque o lugar do preconceito é mesmo aí: sob a elegância desarmante do verniz de um sapato vermelho. É algo que faz sentido. No mundo de Sofia, no meu e, assim espero, no nosso.

Por Margarida Cunha, in RTRO #31, que pode ser lida na íntegra aqui.

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